domingo, 17 de junho de 2012

Dante

Basta-me ser isso só
Inevitável pedaço de mim
Agora sou maior que tudo

Agora sou por todos os lados
Gigante de braços abertos
Revelo poder e brandura
Amor sem amargo ou amargura

Agosto


Era noite e esfriava
Banhadas de lua e acinzentadas
As calçadas do centro da cidade
Choravam as agruras de um dia sujo
Transeuntes que cuspiam suas almas
Tísicas e cheias de fuligem
Dos escapes, cannabis,
Um velho que dorme inerte
Com as marquises apagadas em flagelo
Trapos deitados ao vento penetrante
Das noites de agosto
Desgosto dos miseráveis inefáveis
Que se cobrem com o mais gradeado
Dos lençóis da vida
Corpos verticais em petição de morte
Vagam ainda antes que a noite seu último suspiro

Desviver (a meu pai)


Desviver
                                                                                                                                 Ao meu pai

Não é numa cadeira de balanço que ele espera, nem na cama apenas. Ele anda e come e dorme apenas, - vida tem um peso, como se um armário daqueles de colocar tralhas estivesse nas suas costas. As mãos e o corpo tremem como se a vida ansiasse sair pelas pontas dos dedos ou nas dobras das pernas. A doença dizia-lhe com palavras evidentes que tinha pressa. Não essa pressa que as pessoas têm quando se dedicam aos seus quefazeres, planos e desejos, não. A pressa que a vida tem é a pressa de sair dele, de fugir, largar-se do corpo que cambaleia e não tem mais dureza e a rigidez da juventude.
Deitado no sofá da sala deixa o raio de sol quente encher-lhe a cara vermelha de boca aberta e displicente. Queimaria se não saísse com a sutileza da chegada. A luz do sol não tem muito que ver com a escuridão que começa a se perfazer na mente que não pensa, nem reflete, nem projeta, só espera. Espera. Esperar não é a faculdade dos que adquiriram paciência... é também a dos que perderam a urgência. A sala às vezes parece que é grande demais nos seus menos de 10m². Dimensões imensas. A sala é cheia dos netos que a vida joga e os filhos que a vida fez. O velho sentado na sala como uma cadeira de uma sala que não se usa mais, uma televisão ligada e desligada à revelia de seus desejos, um cumprimentos que soa a normalidade mais abandonada dos seus. Que também esperam.
Enquanto os dias se passam numa mágica lentidão de eventos: um café, uma rotina matutina que não preenche mais as expectativas, uma passagem na rua ao lado para não ver mais ninguém de seu passado que se distancia sem rastros, a padaria da esquina que antes comportava o nome de mercearia e tinha a nódoa de um mínimo passado esvaído em imagens que não voltam, a visita a parentes que só ele conhece a fundo e de perto, a noticia que um irmão está a beira da morte não mais surpreende nem estagna ou entristece, é um recado puro e simples como “o pão mais novo só sai em dez minutos”.

Soberba


   Tua sobra me falta
Me invade de desejo
me supre de ausência
Quero a tua alma
Soberba e sobrante
de tudo que me preenche
Quero a tua alma a balançar
na caminhada e sentir
o teu calor a me sugar em teu mar
Morena da cor-do-sol, sal meu.
Mendigo
as tuas sobras, meu mal!

A queda


V a i  c a i r  a  l e...
t-r-a
P ê
D a  a l a v r a
               v     
                   r
                   r
                       a

            oscacoscacos

Gravura


calor e cheiro de viver
delicia e desejo de ser
um só em mim sendo
eu não sou esse (não)

eu tenho muito de mim escondido
no sem fim do eu internamente
subjacente à casca que me enlaça
e me esconde do outro de mim

eu sou um quadro na parede

Lavoisier


Sutil e vibrante cor de violeta rosa e carmim
Sinestesias e desprazeres calorosos
Medo
Demasiado desejo de explodir por dentro
Suspiros engolidos com pânico e lágrimas
Doces
Apuros e mortes internas infernais
De que sou feito?
Lama ou chama?
Flor ou folha?
Água ou ar?
Cheiro ou sabor?
Eu nasci ou fui plantado?
Eu morro
Ou
Me desfolho...

Respostas


O que seria uma página em branco?
O que seria um poeta sem canetas?
O que seria um jornal sem crônicas?
O que seria um dia sem fatos?
O que será das respostas se as perguntas são auto-suficientes?

Da Liberdade


A liberdade é um elefante branco
Que habita as zonas alagadas
Do sertão da Paraíba.

Epitáfio


Deixem em branco
A lápide fria de minha vida
Fria
Ou guardem-na para
Alguém que tenha,
Na vida,
Sido.
Eu nem tentei.
Melhor seria a vala comum
Onde habitam,
Anônimos, os
fracos.  

Lápis


Que função sórdida dou a esta caneta
Como se delegasse um ministério
Sacerdotal e promiscuo (santo)
Oficio de um sujeito de ócio

Uma revolta toma conta deste
Objeto, dejeto e infâmias horas
De despessoalização e dissimulação
Do ser finito do tamanho do mundo

O mundo de coisinhas nadas
Tudos de brancos negros
Cheiro de tinta preta-azul

Amiga de noites sem gim
Perdidos pedaços de mim
Esvai-se dessa coisa inócua.

A máscara


Dois em vários
Eus estamos assim
Nós sentindo só

As imagens revelam
Uma doce parte
Perdida de nós

Numa profusão de mim
Me fotografo
Diante do espelho

E me revelo uma luz
Apenas.

Himalaia

Há firmeza apenas na / inconstância. Esta é a / minha certeza. Este é o / meu consolo. Mais / constante que o meu / sentimento de afogamento / é a minha ânsia de que será / amanhã. Mas, como? Se / falta em mim um homem / forte e destemido: uma / porção de Adonis em busca / de uma Perséfone que me / conduzisse ao mais / profundo dos infernos, / aonde Cérbero não vai, e / me guiasse ao máximo de / mim numa viagem dantesca / pelas minhas próprias / entranhas inexploradas. / Estou em ebulição e / letargia. Vulcão vivo / coberto de neve.

Carta


                     Minha Musa,
           É bom poder te escrever estas palavras, que são menos palavras que palavras são. Tenho muita doçura e néctar, tenho alma e calor. Palor. Ardor. Alvura e cor... Só dizer-te ao longe que jasmineiros nada mais fazem que imitar teu cheiro, já que as rosas não têm mais que a graça de um espelho quando estais no jardim. Alvura e candura são as tuas cores, com nódoas e laivos em vermelhos escorrendo de teus lábios de carne de caqui. Dentes de marfim sem fim de brilho, em mim de luz. Alma infantil e olhar matreiro. Duas bolinhas de gude, jabuticabas maduras olhando-me e fazendo serenar no céu de minha boca o orvalho doce do desejo.
            Não te vás minha Cara. Não deixa esse deserto em meu peito. Chove em meu sertão, como as águas de dezembro que trazem sorte e encerram o ano deixando a vida.
            Com devoção.
             Seu Poeta.

Balzaquiana I


Como os Zéfiros que ocupam as campinas
Espalham as boninas em balé fremente,
Os cabelos de minha amada balem e
Espalham o dourada incandescente.

Olhar seguro de verde encanto
Fez-me escorrer Amor-Calor
A desejá-la desde menina
Como quem colhe no campo a flor.

A minha Amada é tão intensa
Mimosa mulher bonina-em-flor
Eu quero sempre em mim seus beijos
Molhados, doces, mel e palor

Quando em menina é a mulher
Hoje em mulher é a menina
Que tanto quis e quem não quer?
O seu encanto de luz divina.

Entre os seus braços eu quero estar
Deixar que seus olhos em mim desvele
No fundo de meu peito profundo:
Meu Amor, meu mundo é Magnely.

Ode à Amália Rodrigues


Na calada da noite
as coisas vão acontecendo na minha alma,
como um calor que me sua
como um vapor de caldeira,
como a tampa do vulcão que encobre a alma
que sai de dentro de meu dia
sempre que a noite ergue-se.
Hoje é desses dias de noite maior que o dia
e dia mais mole que a folha pendurada do jasmineiro que nem o beijaflor é capaz de ter pra si,
ela cai cai cai igual as gotinhas de desejo que pingam de minha boca semiaberta.
De mim pingam no limbo da noite o teu desejo e a tua alminha de anjo.
Pomares, lavouras, pastos:
tua alma me alimenta com suco da poesia e a dureza das raízes...
embebido dentro de mel e sal me faz suar.
A tua delicadeza é nuvem que transborda água fria quente morna ocre e carmim,
em mim.
Tu entras e deixas a delicia de um olhar
cortando o corte de um punhal de dois lados.
O lado de dentro e de mais dentro ainda,
em ti não tenho superfície...
você se faz minha carne e epiderme sangue e saliva, minha.
Minha és em meus calores
e sempre estará acesa-vela de meu suor.
És fado de Amália com gim e formosura
...airosa flor de lua, luz.