sexta-feira, 11 de maio de 2012

Ode à crítica (de Pablo Neruda)




Eu escrevi cinco versos: um verde,
um outro era um pão redondo,
o terceiro uma casa levantando-se,
o quarto era um anél,
o quinto verso era
curto como um relámpago
e ao escrevê-lo
me deixou na razão sua queimadura
E bem, os homens, as mulheres
vieram e tomaram
a sensível matéria,
brisa, vento, fulgor, barro, madeira
e com tão pouca coisa
construiram
paredes, pisos, sonhos,
Em uma linha de minha poesia
secaram roupa ao vento.
Comeram minhas palavras
as guardaram
junto da cabeceira,
viveram com um verso,
com a luz que saiu do meu lado.
Então, chegou um crítico mudo
e outro cheio de linguas,
e outros, outros chegaram
cegos e cheio de olhos,
elegantes alguns
como cravos com sapatos vermelhos,
outros estritamente
vestidos de cadáveres,
alguns partidários
do rei e sua elevada monarquia,
outros tinham-se
enredado à frente
de Marx e sapateavam em sua barba,
outros eram ingleses,
e entre todos se lançaram
com dentes e facas,
com dicionários e
outras armas negras
com menções respeitáveis,
se lançaram
a discutir a minha pobre poesia
às gentes simples
que lha amavam:
e a fizeram um funíl,
a enrolaram,
a sujeitaram com cem alfinetes,
a cobriram com pó de esqueletos,
a mancharam de tinta,
a cuspiram com a suave
bondade de gatos,
determinaram-na a ser papel de embrulho,
a protejeram e a condenaram,
a derramaram petróleo,
a dedicaram húmidos tratados,
a cozinharam com leite,
Juntaram-la pequenas pedrinhas,
foram apagando as vocais,
foram matando-a
sílabas e suspiros,
Arrugaram-na e fizeram
um pequeno pacote
que destinaram cuidadosamente
as seus porões, a seus cemitérios,
logo se retiraram um à um
enfurecidos até a loucura
Porque não fui bastante
popular para eles
ou impregnados de
doce menosprezo
por minha ordinária falta de trevas,
se retiraram todos e então,
outra vez, junto à minha poesia
voltaram a viver
mulheres e homens,
e acenderam fogo,
construiram casas,
comeram pão,
e repartiram a luz
e no amor uniram relâmpago e anél.
E agora, perdoem-me, senhores,
que interrompe este conto
que estou-lhes contando
e me vou viver
para sempre
com a gente simples.

(Traduzido por Ivan Santos)