segunda-feira, 30 de abril de 2012

Café

Ao acordar o corpo
o trago de aroma
o preto prazer morno
o cheiro da boca


A casa repleta do gosto
do gole a goela se molha
o corpo que mole repousa
pra o rádio ou conversa mole


De Minas, Colômbia ou mercado
não importa de onde ele venha
importa que esteja passado
ou doce ou amargo ele seja


O líquido da cor de Iracema
no lábio ou na língua se enrola
É vivo. É mais que um poema
Melhor não tem nem Coca-Cola

Poematicidade (em parceria com Flaw Mendes)


Sinônimo


De manhã é o avesso da noite
Assim como a morte é o revés da vida
E a terra é o revés da água
O pó é o pedaço da pedra
O homem é o pedaço do nada
O nada é a parte de tudo
O cheiro é um pedaço da fruta
A mata é o pedaço da árvore
A árvore é o todo da mata
O quintal é o pedaço do homem
O homem é o  pedaço da fruta
A fruta é um pedaço da árvore
A pedra é o inteiro do pó
O revés é o contrário da ida
A vinda é o contrário da vida
A ida é o caminho da morte
A vida é o conjunto de tudo
tu-do-tu-do-tu-do-tu-do-tu

Desviver (ao meu pai doente)


Não é numa cadeira de balanço que ele espera, nem na cama apenas. Ele anda e come e dorme apenas, - vida tem um peso, como se um armário daqueles de colocar tralhas estivesse nas suas costas. As mãos e o corpo tremem como se a vida ansiasse sair pelas pontas dos dedos ou nas dobras das pernas. A doença dizia-lhe com palavras evidentes que tinha pressa. Não essa pressa que as pessoas têm quando se dedicam aos seus quefazeres, planos e desejos, não. A pressa que a vida tem é a pressa de sair dele, de fugir, largar-se do corpo que cambaleia e não tem mais dureza e a rigidez da juventude.
Deitado no sofá da sala deixa o raio de sol quente encher-lhe a cara vermelha de boca aberta e displicente. Queimaria se não saísse com a sutileza da chegada. A luz do sol não tem muito que ver com a escuridão que começa a se perfazer na mente que não pensa, nem reflete, nem projeta, só espera. Espera. Esperar não é a faculdade dos que adquiriram paciência... é também a dos que perderam a urgência. A sala às vezes parece que é grande demais nos seus menos de 10m². Dimensões imensas. A sala é cheia dos netos que a vida joga e os filhos que a vida fez. O velho sentado na sala como uma cadeira de uma sala que não se usa mais, uma televisão ligada e desligada à revelia de seus desejos.
Enquanto os dias se passam numa mágica lentidão de eventos: um café, uma rotina matutina que não preenche mais as expectativas, uma passagem na rua ao lado para não ver mais ninguém de seu passado que se distancia sem rastros, a padaria da esquina que antes comportava o nome de mercearia e tinha a nódoa de um mínimo passado esvaído em imagens que não voltam, a visita a parentes que só ele conhece a fundo e de perto, a noticia que um irmão está a beira da morte não mais surpreende nem estagna ou entristece, é um recado puro e simples como “o pão mais novo só sai em dez minutos”.

sábado, 28 de abril de 2012

A Orelha




A Vincent van Gogh


Quando a cara não aparece no retrato
(O ser enigmático se esconde)
A cara se contrai em dores de vida
A cama fica menor que o corpo
O corpo fica maior que a alma
A alma fica maior que a vida
A vida se contrai para um grão.

Qualquer que seja o olho, se fecha
Qualquer que seja a boca, seca
O que resta do homem no espelho
Senão a secura do seu lábio
O tamanho dos seus sonhos
A perda de sua memória
O silêncio dos seus gestos
A gota gasta de bile crestada
Na goela de seus dias vazios.

Nada que é tudo


Amanhã o dia é para heróis
Hoje o dia é para os vivos
Ontem o dia é para os mortos


Mas como nada é para os homens
e tudo é para os que poderiam ter sido
O mito é para todo o tempo


Fernando Pessoa é para além do mit

Highway to Hell - Idade neobarroca


É mais ou menos assim que as coisas andam!
A pós-modernidade é uma faca de dois gumes,
Derruba as barreiras, mas abre muitos becos
aos quais chamamos caminhos, destinos ou
simplesmente chamaremos de "highway to hell".



http://www.youtube.com/watch?v=40sGruiDcbo&feature=related

Retrato do meu desejo


Naquele prédio antigo como o desejo
Mora o meu mais novo desejo antigo

Acesa imagem de mulher não-santa
Contorno de sinuosidade curta

Carnosidades e sensualidades
Em vermelho que se espraia como sacrifício

Na boca na carne nas faces nas ancas
Naquele prédio antigo como desejo

Eva reaparece me enfeitiçando
Hálito boca carne e caldos

Sugados em doses homeopáticas
Um pouco de longe um pouco de perto
Um tudo por dentro

Retrato de meu desejo que cai da parede
No meu sonho no meu colo

Mito


Quando Ulisses sai para ver Loreley
em sua manhã casa azul
ele não tem nenhuma noção de como o dia é vermelho
no interior das coisas
                                   mais externas dela
porque ela tem a densidade de uma porta firme forte
que nos expõe um interior formidável
e às vezes de fórmica
brilhosa ou fosca
e às vezes um branco transparente da cor dos olhos inundados
                                                                                                                      [Mar de Ítaca
mas ele sabe que um homem como ele banhado de poesia
vai precisar de muita habilidade poética ou quem sabe filosófica para abrir a porta de sua alma

A cidade de Tróia
não dá metáfora para ela
Loriley é muito babilônica e não daria gosto de um frangote como Aquiles
traspassar suas barreiras
não é mania de grandeza de Ulisses
ele é grande mesmo

bem maior do que os sítios que derrubaram Jericó

e mais audacioso que as investidas de Josué conduzindo os hebreus pelos ermos solares
da região do Jordão
e adjacências
remotas
Loreley é um
Mito
Ulisses é onírico  

Presentes


A vida prepara pacotes
Carregados de presentes
Deixa na tua porta
Bate na tua janela
Fala nos teus sonhos
Inscreve nas tuas pedras
Pousa no teu quintal


A Vida é dadivosa
Modesta avó de um neto
Garante a tua surpresa
Congela diante dela
Teus olhos de desejo
Constroi a tua ânsia
Destroi tua tristeza


A vida, amiga minha,
Me deu teus olhos pretos
Me fez ser teu menino
Abriu os olhos meus
Buscou lá no meu íntimo
A alma que tinha ido
Viver, mas, não viveu.


A tua palavra mansa
O teu riso de carmim
Fizeram por sua vez
Eu querer em meu jardim
Ah! orquídea que caía
Na distância esquecida
- Cai aqui perto de mim.

Flor da noite



O sol entrava como um ladrão
pela janela.
Um sol de tom azul prateado
que
molhava meu corpo com esmero e doçura.
Eu não sei se é frio ou é apenas sono, mas, sei que sinto.

O que sinto eu não sei bem.
Os meus cabelos me encobrem parcialmente meu rosto que não quero mostrar.
Minha cara é minha alma por isso evito o Espelho.
O que quero não se traduz, não se compõe.
O que sou é vasto.
Sou profunda e o espelho é raso como a superfície
das águas.

O meu olhar está inclinado
porque eu nego esse horizonte que não foi eu que escolhi.

Eu me desmonto e me desfaço.
Eu estou chovendo
em laivos de prata que caem
gota
a
gota

do meu olhar.

Coisa de hôme



Eu quero a boca que come!
E comer a boca com fome.

Engolir a língua que some.
Na boca que grita meu nome.

(e em seguida)

-- Me-come.