sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
(...)
as coisas vão acontecendo na minha alma,
como um calor que me sua
como um vapor de caldeira,
como a tampa do vulcão que encobre a alma
que sai de dentro de meu dia
sempre que a noite ergue-se.
Hoje é desses dias de noite maior que o dia
e dia mais mole que a folha pendurada do jasmineiro que nem o beijaflor é capaz de ter pra si,
ela cai cai cai igual as gotinhas de desejo que pingam de minha boca semiaberta.
De mim pingam no limbo da noite o teu desejo e a tua alminha de anjo.
Pomares, lavouras, pastos:
tua alma me alimenta com suco da poesia e a dureza das raízes...
embebido dentro de mel e sal me faz suar.
A tua delicadeza é nuvem que transborda água fria quente morna ocre e carmim,
em mim.
Tu entras e deixas a delicia de um olhar
cortando o corte de um punhal de dois lados.
O lado de dentro e de mais dentro ainda,
em ti não tenho superfície...
você se faz minha carne e epiderme sangue e saliva, minha.
Minha és em meus calores
e sempre estará acesa-vela de meu suor.
És fado de Amália com gim e formosura
...airosa flor de lua, luz.
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
ESTREITO
mesmo assim eu não me sinto bem, não importa se agora eu sou livre como zéfiros ou córregos ainda não encontrados pelo homem, não importa, eu sou escravo de minha liberdade que me garante o direito, o direito e o poder demasiados de tudo, isso é uma prisão, não ter medidas certas me aprisiona como ter medidas herméticas, a liberdade é um idílio sedicioso e vago, não a vaguidão de campos vastos; sou denotativo nesse termo, digo vago de vazio de não ter de não ser de não conter, tudo é vago nesse instante em que minha vida se traduz em nada, há uma vastidão em mim que me não permito ir, caminhar ali não é o que eu quero, quero o que não sei e tenho o que sei que não quero, minha estada é impermanente instável e dissoluta, ah como queria uma casa de quartos pequenos do tamanho das linhas do meu horizonte! mas eu só tenho a presença constante do mais aberto dos caminhos, isso me atormenta, estaria eu acostumado demais à latinamérica fidelíssima aos seus donos, meus limites não têm beira nem alma têm o vão das coisas que posso e me recuso porque sei que não devo, ainda insisto nesse mesmo dilema maniqueísta da duplicidade ser/ter está/é poder/dever, não sei do mais, sei do menos de mim, de minhas limitações espaciais temporais, eu sou uma narrativa presa aos velhos ditames estruturais dos folhetos policias de Londres, não importa tenha Joyce nascido ou não, eu sou nada mais que uma notícia de jornal safado que não perpassa nem mesmo as zonas limítrofes do dia e já deixa de ter relevância, sentido, sentidos isso sim, nortes, rotas, vielas abertas sem rumo como nos bairros antigos dos filmes italianos que já não passam mais, um beco se eternizou na minha memória, mesmo que eu não quisesse ele vai sempre estar lá, porque na memória nós não temos limites e mais uma vez somos surpreendidos com a nossa queixa de que tudo que devia ter passado não passou e agora só tem a mais completa presença dentro e fora de nossos olhos de lua fria, de noite que não passa, mas a noite passa por cima de tudo menos dos nossos pensamentos abandonados no caminhos estreitos de uma só passagem, a vida se tem dobrado em duas para dar-nos conta da sua enormidade e só temos visto o ser sendo multiplicado em dimensões vastas e dissipadas injuntáveis como quebra-cabeças em caixa de brinquedo antigo, sempre falta pedaços, quando não, disposição de compor, eu desisto desse jogo e componho um novo sem as peças que faltam, uso apenas o vazio como componente de um espaço que completa e torna tudo mais cheio de nada, eu sou a peça que se perdeu no tempo e no espaço de mim mesmo
Samba Crioula
me ama e me bolina, menina
você me deixa louco, um pouco
dourada que me fascina, felina
sentada na beira da praia, arraia
calor doçura de mel, meu céu.
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
FOGO BRANCO
mole e doce seda e gasimira
A alma me aquece como numa fornalha
e a boca tece seu bordado
rio que corta a mata profunda
caldo quente que me suga
caldo gente que me engula
hálito de baunilha e mel
corpo, colo, peito e lingua
alma doce em sonho mingua"
sábado, 5 de setembro de 2009
IRACEMA
esse jeito de andar que deixa
o corpo mole como se nadasse
ou voasse numa leveza quase etérea,
como pode esse voar tão baixo
e rasante,
serpenteando no chão,
lagarto no chão quente do serrado.
Uma borboleta é um beijo de asas,
me pousa,
morena,
me néctar, me poliniza de ti.
Anjo de morte e amor, mor,
te plâncton como um grande peixe que engole.
Me enraízo-te.
Sugo tuas seivas e nutrientes,
tua água me afoga e me batiza.
Unta-me em plasma,
envolve minha alma tua.
Saliva-me.
Salva-me.
Sal em mim.
Salte em mim.
Sal.
Mel.
terça-feira, 25 de agosto de 2009
c@mpina.pb
É sexta-feira na praça da Bandeira
Olhos violetas-verdes-azuis-castanhos
Sorrisos brancos pintados de nuvem
Caras que brilham metalizadas
umbigo
nariz
sobrancelha
língua
Que língua fala essa praça?
Esse povo?
[tão louco é ver e ouvir]
Entender?!
Tipo assim...
Sei lá.
Soneto de amor III
Quando um poeta erra
O mundo acinzenta
Os pássaros pousam
As crianças não riem
Os homens não guerreiam
As bombas não explodem
Os bêbados não cantam
Os bares não abrem
Quando um poeta erra
Os significados mudam
As palavras empobrecem
As metáforas inexistem
Os homens acertam os alvos
As verdades são verdades
Soneto de amor II
A sua timidez devassa arrepia
Espanta e congela de gozo
De nojo, de pavor, de amor,
De surpresa, agonia e medo.
A palavra é uma coisa viva
Que remexe dentro e fora
Morde fere esfola. Alisa
Com voz mansa e tênue.
“La parole” é uma coisa morta:
[uma vela na mão de um cego]
uma lua embaixo da cama
As palavra são todas as coisas
Os homens são palavras não-ditas
Bem ditas, mal ditas, neológicas.
O VOO DA GUARÁ VERMELHA observações teoricas
Rosálio sente dó, tanto dessa mulher!, faz lembrar aquela guará, vermelha, de pernas longas e finas como caniço, que ele uma vez encontrou enredado nos galhos de um espinheiro, as pernas ainda mais rubras, tintas de sangue que ele soltou e quisera curar mas que, descrente, arisca, fugia dele, para quem sabe?, sangrar até morrer, sozinha, desamparada naquele ermo tão longe dos mangues de onde viera; mas esta não, esta vem cair no seu peito, não foge, Rosálio não deixa, faz dos braços cerca em volta dela, embala, devagarzinho, e começa a contar:
Uma vez eu vinha só, caminhando por um ermo, somente eu e Deus, naquele lugar tão longe, um descampado sem fim, de capoeira seca e rala, vinha buscando lugar que fosse de gente viva onde houvesse descansar e então, naquele silêncio, ouvi um gemido triste de cortar coração e vi uma ave guará enredada em um espinheiro, se debatendo coitada... (p. 18, 19)
O sangue de Irene era a sua maior desventura. Trazia a sua morte e a sua história. Dava-lha a alcunha de ‘puta velha doente’, o que lhe rendia muitas dores e perdas, visto que a sua vida era conseguida por sexo em troca de dinheiro. O mal de Irene estava no sangue, ali também estava o seu sustento. O respeito e a perseverança que a personagem desenvolve são o que há de mais intenso nesta narrativa. A insistência de seus parceiros em fazer sexo sem preservativo e a resistência dela, mesmo sob violência, era a prova de sua ética e moral.
Irene, cansada, cansada, como custa esforço não pensar em nada!, como custa afastar do pensamento a criança nos braços encarquilhados da velha naquele barraco fincado na lama, o papel amarelo com o resultado do exame, o médico, falando, falando, falando o tempo passando , passando, passando numa correria, quase todo dia já é segunda-feira, ir levar um dinheiro para a velha, ir saber se o remédio prometido chegou, pegar o pacote de camisinhas e ouvir a assistente social lhe dizer que mude de vida [...] Engraçada aquela assistente social, “deixe essa vida”, está certo, eu deixo essa vida, não me importo de tudo se acabar agorinha, que esta minha vida só tem uma porta, que dá para o cemitério, mas a senhora vai tomar conta do menino e da velha? (p. 12, 13)
Estes conceitos (ética e moral) são difíceis de serem colocados assim com muita espontaneidade, mas como já comentado acima, esta é uma das características mais fortes de Maria Valéria Rezende, a sua ousadia e confrontação de status quo tão entrincheirados na sociedade latino-americana ainda cristianizada (a visão de mundo da autora talvez tenha muito que dizer nesta obra, uma vez que ela pertence a uma ordem religiosa católica), principalmente quando se trata de escritura/representação de mulheres na literatura.
A paixão de Irene é paralela à paixão dos festejos pascoais judaicos. Uma paixão pela vida. Uma paixão que ressuscita. O encontro de Rosálio com Irene salva-lhe também da morte em vida, do estado de vegetatividade humana, da desolação e do abandono – esta vem cair no seu peito, não foge, Rosálio não deixa, faz dos braços cerca em volta dela, embala, devagarinho (p. 19). Os vazios existenciais de ambos os personagens passam a ser preenchidos com palavras. Palavras de salvação. A Palavra. O Verbo. Voltando ao universo judaico-cristão que permeia esta obra, se é que é possível sair deste. As lacunas começam a ser preenchidas quando o casal descobre que o que mais precisavam era o conhecimento: “E conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará”. (João 8:32)
A liberdade é uma condição adquirida (Comte-Sponville, 2002) que Irene tem como um doutor pela Sorbonne talvez não tenha. Irene tem a liberdade maior dada a sua condição de mulher. Longe de ser a condição idealizada por Flaubert com a sua Bovary impetuosa e cheio de quereres e fazeres, pois, o querer e o fazer de Irene são limitados pelas mesmas causas que a tornam livre. A protagonista assume uma condição de liberdade que a nossa sociedade só permite àqueles a quem ela não dá mais importância e relega à condição marginal e subalterna.
Rosálio vê primeiro a mancha vermelha em movimento, surpreendendo-o na dobra da esquina, luz, lufada de ar que alivia a garganta engasgada pelo cinzento, só depois vê a mulher dentro do vestido encarnado, a metade de um sorriso aparecendo devagarinho na cara dela, a mão acenando repetidamente “vem, vem”, e ele vai. (p. 15)
Irene pode agora ser prostituta e professora, assumindo uma condição de humanização jamais vista em nossa literatura ainda tão enraizada dos ditames estéticos dos românticos e realistas do século XIX, que elevam a mulher à condição idealizada de beleza como ainda atribui a ela uma pompa burguesa e glamorosa sem permitir-lhe a possibilidade de ser sujeito de sua própria existência, condicionando-a a um lugar de obediência ou subversão do padrão de vida masculinista da época.
A maior condição de livre que notamos na prostituta Irene é a possibilidade que ela tem de ser ela mesma e fiel a sua própria condição (des)centralizada. Neste caso é ainda mais clara a proposição da autora que em sua inegável posição de humanista tem em Irene o símbolo do que não é exceção, mas do que é mais comum no mundo de coisas reais de onde ela arrancou esta personagem. Daí dizermos anteriormente que a narrativa em foco caracteriza-se pela “vocação” neorealista de literatura, uma vez que a história contada ou ficcionalizada não foi filtrada pelas idéias românticas e apenas estéticas da percepção do mundo: há a construção de uma filosofia de vida pautada na cooptação do real que é incorporado à teia ficcional, e nesta elabora-se uma visão de mundo não romantizada, mas capaz de fornecer subsídios discursivos para a compreensão do sujeito humano naquilo que ele mais é como pessoa.
A posição de Irene como sendo capaz de ser mãe solteira, prostituta, doente, órfã, desprovida de projetos sociais e de um lar sem dignidade humana a põe não no patamar da miséria humana e sim num grau da capacidade de resistência. Resistir para Irene não era uma possibilidade, era a única forma de vida possível a ela, enquanto ainda havia força no sangue que a impelia gradativamente para a morte. Em sua ganância pela vida, como as aves quando são abatidas, trabalha arduamente na busca de conseguir o alimento do filho que não mora com ela, mas está sob sua guarda econômica, e a sua ajudadora, ‘a Velha’, que dele cuidava. Já diria o provérbio popular que ‘felicidade não é ter o que se quer, mas querer o que se tem’. Este é o caso de nossa protagonista. Querer viver e acreditar que é possível ser quando tudo funciona ao derredor do ter, manchado de vermelho.
A paixão encontrada nesta obra recobre também a personagem Rosálio que tem em seu itinerário de vida uma mala a ser carregada. Uma fortuna lhe acompanha em cada passo dado em busca da vida, que aos seus olhos estava ‘logo ali adiante’. A tônica de sua vida era continuar ‘sendo’. O estado de cigano que vivia Rosálio é símbolo maior de sua paixão pela vida que ele carregava parte no “chocalho fatídico dos ossos”, como cantava Augusto dos Anjos, parte na mala que arrastava mundo a fora. Os livros carcomidos, a ausência do letramento e o desejo ler são o tripé que sustenta esta narrativa de Rezende.
A vida foi a escola do personagem Rosálio, visto que dela ele herda toda aprendizagem e sabedoria prática para poder se estabelecer em seu sonho andarilho. Homem adulto de tosco trato e muita poesia na alma, Rosálio tem seu mundo restabelecido no encontro de sua perdição/libertação, ou seja, quando encontra Irene numa zona de meretrício e não tem dinheiro para pagar pelo serviço que lhe era oferecido. Ele trazia na ausência do dinheiro uma preciosidade muito mais contundente: a alma.
Partiu confiado no faro, procurando o encarnado do vestido da mulher, deu voltas, desatinou, se perdeu, reencontrou e por fim vê a janela onde, vestida de verde, reconhece a mulher triste da qual nem o nome sabe, só sabe que ela esperava palavras que ele trazia [...] senta na cama cambaia, recosta-se em almofadas, abre a folha imaculada, molha a ponta do lápis na língua pálida e escreve: A história da guará vermelha. (p. 23) (o negrito é meu)
Alma de homem e não de cliente, pois para Irene o cliente não era um homem, era um freguês. Mas, Rosálio, que desde sua chegada àquele quarto era homem e não freguês, devido a sua condição de desprovimento de dinheiro, requisito maior no trato homem/mulher no submundo do sexo, queria uma alma.
A metáfora da caixa de histórias na vida de Rosálio pode ser vista como uma carga imaterial. No mundo da alta modernidade é de se imaginar que as pessoas acumulem bens e se fartem do que lhes enchem a os olhos e a casa, mas não enchem a alma; no caso do nosso quase-herói é o contrario. A caixa se vai esvaziando, e a cada dia ele vive ao lado de nossa quase-heroína. O não ter ganho dimensões maiores quando os sujeitos não aspiram nem de forma mais distante qualquer tipo de ascensão social ou econômica, como também não demonstram nenhuma forma de conformismo ou catastrofismo determinante, eles são apenas o que são em suas existências densas e esvaziadas ao mesmo tempo.
O Homem entrou de mansinho, está parado atrás dela, com sua caixa na mão, [negrito meu] escutando o que ela diz sorrindo move a cabeça no gesto de quem diz não, pousa com todo cuidado a caixa de livros no chão, Põe-lhe as mãos quentes nos ombros e a vira para seu peito, “não diga tanta besteira que amor não é assim, o amor é como um menino que não sabe fazer contas nem de perda nem de ganho, vive desacautelado, não tem lei, não tem juízo, não se explica nem se entende, é charada e susto, mistério.(p. 70)
O volume que Rosálio traz é muito mais símbolo de suas aspirações humanas que baú de saudades e tesouros materiais.
À medida que as narrativas vão sendo retiradas de dentro das linhas daqueles velhos livros, as coisas passam a ter novos moldes. A lembrança do velho bugre que lhe deixara estas relíquias era desobstruente. Esta abria para o homem Rosálio o túnel de seu passado e de sua origem que quase se perdem na cinzenta e vaga expansão de sua nulidade atávica.
Irene ascende na vida de Rosálio como a princesa Sherazade na vida de seu príncipe Sultão. Rosálio, ao contrário do Sultão que ouvia histórias que salvavam a sua amante (já que este era algoz desta), o nordestino, tanto ouvia histórias como contava histórias que salvavam tanto a ele quanto a ela. Era um tesouro compartilhado que enriquecia a todos os que por perto se chegassem, como no caso de Anjinha, amiga de Irene, também prostituída e aidética, que, se desfazendo da vida, mantinha relações sexuais sem preservativo com seus clientes numa tentativa de vingança pelo mal adquirido, mas que passa a ser fiel escudeira da amiga nas horas de ouvir as histórias retiradas do “livro da vida” de Rosálio ou dos livros carregados por este numa caixa que era o seu único legado material.
Irene abre os olhos e vê o homem que se calou e parece estar mirando muito longe, deixando no ar um eco, “pra um outro mundo, pra um outro mundo” quem?, eu?, há muito tempo que Irene sabe que lhe basta dar um passo, que o outro mundo é logo ali, mas que ficar mais um dia, que ouvir mais da histórias que o homem lhe dá de graça, mesmo que não ouça tudo, mesmo que às vezes cochile, essa voz lhe faz tão bem!, Anjinha já adormeceu, encolhida ao pé da porta, Irene fecha os olhos sem querer.
Rosálio leva sua caixa e leva a decepção de hoje ainda não ouvir ler do livro de mil histórias, mas há de ter paciência, que a pobre mulher que lê deve estar muito doente. Amanhã mesmo ele volta. (p. 38)
quarta-feira, 24 de junho de 2009
Tentei
Poeminha escrito na adolescência... (Outubro de 1996)
Hoje cheguei à conclusão
Que as tuas recusas
Me fizeram mais
Forte, pois tanto persisti
Que bom que essa força
Hoje me faz insistir..
Poética
O poema é o samba
Das páginas
Quando ele chega sacode,
Balança e encanta. E enche
De rubor os rostos pálidos
Das folhas brancas.
O poema é um chopp
[numa tarde de sol]
O poema é samba
De Chico cantado por Nana
O samba é o poema das passarelas
O poema como o samba
Não morre
Jamais.
Dia dê
Descontrole, desejo, depenada
Desfeito, defeito, desmontada
Destroço, disposto, desmaiada
Desse...
Daquele
Desejo,
Despejo,
Dedo.
Demora, agora.
Deitada.
Deixa.
Deitado.
Demora, agora.
crônica ( ou a última estação )
quantos de nós vivem a euforia da vida?
essa coisa desacertada e desconexa
esse não sei o quê que faz a gente pulsar
esse trem que abre serras sem ter trilho
sentado numa cadeira o meu pai vê a tv
que sem a sua atenção diz o mundo em instantes
e desdiz sem que ele note a primeira informação
a vida é uma embalagem de biscoito
com a validade mais curta que a fome
uma velha senta no terraço da casa sem filhos
sem filhos a velha casa
a velha e a casa
sem trilhos
trem que passa e passa
e passa e passa
esdrúxula máquina desordenada com um som de metal
que quebra e bate e bate e quebra
o trem
trem
rem
em
m
o tempo quebrou a máquina de datilografia
modificou o espelho
comeu a minha família e cuspiu um mundo de coisas
cuspidas
a poesia de meus dias foi comida pelo trem
na sua trilha dos destrilhos
a vida bate nos dormentes de meu peito dormente
e ainda é uma furtiva imagem nos olhos de
meu pai velho
a tv se desliga quando o tempo gasta a luz que a incendeia
mas meu pai não viu
o tempo já tinha desligado seus olhos
com o sono mais doce que esse mundo amargo
consegue consumir
o tempo o trem a vida
a vida o trem o tempo
o trem a vida o tempo
está tudo consumido
consumado
domingo, 3 de maio de 2009
A não ser um
Um dia que tudo se foi
Um medo de não mais poder
O dia da vida se erguer
O Nada de antes de tudo
A coisa depois de você
A falta não mais se ter
A coisa
O nada
O ser
sexta-feira, 1 de maio de 2009
GALO - O Rei da Borborema
E o tempo foi passando e de repente surge no meio de tudo e para a alegria de todos um clube desportivo onde a juventude se entretinha nos lazeres e jogos pueris... mas não foi tão simples assim. Com um tempo a nação foi ganhando força e o seu clube foi ganhando um nome. Deram-lhe o nome de Treze Futebol Clube, mas ficou muito conhecido por Galo da Borborema, visto ser ele o único a cantar de galo na campina que vivia. Neste mesmo período já tinha uma outra representação clubística que o povo, desdenhosamente, chamou de Cachorra da Zona Leste, hoje Preá de Pedregal. O Galo foi se tornando mais forte e mais forte e a cachorra tentava mordê-lo e ele não deixa e a luta era grande... como foi estranho a nação ver uma cachorra apanhando pra um Galo! Isto repercutiu mundo afora. O Galo da Borborema rompeu com todos os limites e se enobreceu cada vez mais. Até que o vilarejo (capital) quis combater esse poder indestrutível do TREZE de Campina Grande, nome Oficial do Galo, lançou um adversário, pequeno e frouxo, que para assombrar o Galo chamaram de Botafogo. O fogo já nasceu morto e o galo não tinha inimigos à sua altura.
Pouco tempo depois, os combates foram se intensificando e vinham Cachorras, Fogos, Dinossauros, Gaviões... e nada. Como não havia, mas, nada para se fazer todos numa linda tarde de domingo juntos em mais um dos triunfos do grande Galo da Borborema resolveram render, baixar suas almas, e condecorar o TREZE de Campina Grande, como O REI DA BORBOREMA. E neste momento todos aclamaram em voz alta e em uníssono: Galo da Borborema, tua história tem valor / o teu passado é todo de glória / E o cinqüentenário ele já completou / Tem a torcida maior do Estado / Sempre ao seu lado / Nunca lhe abandonou / Para comprovar tudo isso que falo / Veja os troféus que ele já conquistou / Galo, Galo, Galo, és um lutador / Nas suas conquistas / Raça nunca te faltou.
E assim nasceu O Rei da Borborema, o mais amado, o único, o mais querido. A nação disse Amém.
Adeilson Sousa, trezeano desde a morfogênese infante!
http://www.trezefc.com.br/forum/viewtopic.php?f=6&t=1462&sid=bd989355180228f8c153fcc51cb4eb0f
sexta-feira, 24 de abril de 2009
Tango
Tenso como a corda de um mastro
Interno como a voz de Gardel
Profundo como a noite daquele cabaré de Buenos Aires
O meu tango não tem dança
Só tem alma
E o som do salto dela que dói
Nos meus ossos sem carne.
A letra do meu tango tem
Silêncio e gim, e
Noite que bate dentro de mim.
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
Tempo-tempo
Tenho o próprio tempo
Laçado no meu jardim
Mostro ao tempo como é que a vida cresce
Num quintal que ele não conhece
O tempo come capim por sete anos
e vê que a sua arrogância não tem sentido
eu solto o tempo e mostro pra ele
que as minha rugas são resultado
de minhas observações
A poesia de minha vida
não tem idade, nem tempo, nem biografia
tem rugas
Que nada mais são que as minhas
Experiências marcadas e moldadas
O tempo sai em seu galope de besta
E desiste de mim
Eu ando pelo mundo como se tudo
Ainda estivesse por ser criado
Mas Deus ainda não começou
A sua obra de criação
O tempo ainda é só um plano
Que Deus tem para os que não sabem
Ser e Estar
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
Dialeto Paraibano
Não é distraido..., é 'apombaiado ou alesado'!
Não fica solteiro..., ele fica solto na buraqueira!
Paraibano não vai com sede ao pote...,ele vai com a 'bixiga taboca'!
Não vai embora..., ele vai pegá o beco!
Não diz 'concordo com vc' ..., ele diz 'Né isso, omi!!!!'
Não se admira....ele diz 'oxe, massa!'
Não fica com raiva...... fica 'Cá gota'
Paraibano não conserta..., ele imenda ou endereita!
Não bate..., ele 'senta-le'a mãozada no pé do uvido!
Não sai pra confusão..., ele sai pro 'muído'!
Não fica impressionado....fica abestalhado
Não tem dor de ouvido...tem dor nas oiça
Paraibano não bebe um drink..., ele toma uma!
Não vira de ponta-cabeça ...... vira de bunda canastica
Não dá pulo...... dá pinote
Não joga fora..., ele avôa no mato!
Não discute..., ele moe!
Paraibano não é sortudo..., ele é cagado!
Não corre..., ele dá uma carrera!
Não ri..., ele da uma gaitada!
Paraibano não zomba..., ele manga!
Não compra cachaça..., ele compra 'o lítu'!
Não toma água com açúcar..., ele toma garapa!
Paraibano não exagera..., ele alopra!
Não engana..., ele dá um migué!
Não percebe..., ele dá fé.
Não fala – ta ok? .....fala ...visse?
Paraibano não vigia as coisas..., ele pastora!
Não sai apressado..., ele sai desembestado!
Não aperta..., ele arroxa!
Paraibano não usa zíper..., usa 'riri'!
Não dá volta..., ele arrudêia!
Não 'vai se encontrar com alguém'..., ele 'vai puntá alguém'
Paraibano não espera um minuto..., ele espera um pedaço!
Não é distraído..., ele é avoado ou aluado!
Paraibano não fica encabulado... ele fica todo errado ou todo por fora!
Não passa a roupa... ele engoma a roupa!
Não ouve barulho... ele ouve zuada!
Paraibano não acompanha casal de namorados... ele segura vela ou vende cocada!
Não rega as plantas... ele 'agoa' as plantas
Não é esperto... ele é desenrolado!
Não é rico... ele é estribado!
Paraibano não tem dor de estômago....... tem nós nas tripa
Ele Não é desligado ...... é leso
Não fica preocupado .... fica aperreado
Não fica tenso ..."fica aguniado"
Paraibano não passa mal...... tem agunia
Ele não vai colocar alguma coisa em algum lugar ....... ele vai "butar"
Ele não acha uma coisa legal demais ..... ele acha arretado
Não faz palhaçada ... ele faz prezepada
Paraibano não é homem... ele é macho !
Ô orgulho réi besta!!! OXE !!!!!
Filho de paraibano não é mal educado... é impussive...
Mulher de paraibano não é bonita... é um filé!
Ela também não é gostosa... é uma bicha boooa!
Casa de paraibano não fica bagunçada... fica dirmantelada...
Paraibano não tem colega... Tem pariceiros...
Paraibano não vai para festas... Vais pros cantos
Paraibano não tem roupas novas, tem roupa de ir pros cantos...
Paraibano não se desequilibra... leva um trupicão!
Paraibano não lava a louça... lava os troço!
Paraibano no fim da fila não é o último, é o derradeiro...
Cabelo de paraibano não é cacheado... é incriquiado...
Paraibano não fica farto... Fica impaxado...
Paraibano não se irrita... Pega ar ou se incabula logo...
Paraibano não tem sanitário... tem aparêi...
Paraibano não anda junto... Anda incangado...
Paraibano não toma banho no chuveiro, toma banho de chuvisco...
Paraibano não fica desarrumado... Fica malamanhado...
Paraibano não compra bombom... Compra confeito
Paraibano não é enganado... É ingolobado...
Paraibano não faz ginástica... Faz física...
Paraibano não tem par... Tem pareia...
Paraibano não fica arrumado... Fica alinhado
Paraibano não tem dor nas costas... Tem dor nos pinhaço!
Eita... Se eu continuar não paro... Vou fazer um dicionário...
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
Re-Verso
Escritura de tatuagem
Me crava palavras na alma
Me enche de desejo
E me faz poema sem
Rima
Verso
Estrofe
Me faz ser
Livro, aberto
Esperando os teus olhos
Para me devorar.
sábado, 24 de janeiro de 2009
Soneto de José Maria du Bocage
Mais um daqueles, que não fazem falta,
Verbi gratia – o teólogo, o peralta,
Algum duque, ou marquês, ou conde, ou frade:
Não quero funeral comunidade,
Que engrole sub venites em voz alta;
Pingados gatarrões, gente da malta,
Eu também vos dispenso a caridade:
Mas quando ferrugenta enxada idosa
Sepulcro me cavar em ermo outeiro,
Lavre-me este epitáfio mão piedosa:
“Aqui dorme Bocage, o putanheiro:
passou vida folgada, e milagrosa;
comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro.”
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
Um poema para ela II
Que sopra como brisa de inverno
e me arrepia,
E esquenta qual sol de verão,
e me arde,
A rosa abre, em vermelhos
Cor de corpo, de boca
de alma e cor de sal
Suor de amor e sobras
Sobras e cores.
Cores e formas.
Intensa rosa aberta e muda
Que me devora com seu sabor
Que me arrebata em seu calor
E me desnuda,
E me De-'v'o-ra
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
Considerações sobre Música e música
Outra coisa que me chama a atençao são os ritmos regionais brasileiros e as suas apropriações. Vejamos o que se tem feito no sudeste do país como "forró universitário", funk-pornô, kuduro, MCs e DJs que disvirtuam as propostas ritmicas das danceterias e boates mais mais divertidas, por uma música que jamis vc ouvirá igual porque a que terminou de tocar foi feita por um cara cheio de êxtase que muitas vezes não saberá repetir os mesmos arranjos. No nordeste as coisas parecem piores que no restante do país. Na Bahia, por exemplo, ouve-se o arrocha, bregaché, quebradeira, sambaché, axégode, aché-music não tem mais a sua cara e beleza de quando o termos "axé" valia como um discurso de valorização racial, de empenho pela cultura afro que precisava tanto aparecer e ser difundida para o resto dos país e do continente. Nas variações do forró temos as bandinhas do interior da Paraíba e do Ceará que vêm cantando uma coisa que intitulam de forró mas que não tem nada que ver com os ritmos do arrastapé, xote, xaxado, baião, gafieira, coco de embolada ou outras raizes ritmicas facilmente identificadas com o povo e a cultura do nordestino. Onde já se viu uma discrepância estética tão grande: cantores de "forro-eletrônico" cantando com roupa de roqueiro grunge à moda estadunidense!!!, com cinco ou seis mulheres quase nuas que interpretam peças musicais que ritmo e letras eróticos e não se vê em seus passos nenhuma referência aos passos do Forró nordestino.
É preciso ver com outros olhos os que dizem que isso é uma perda e ouvir com outros ouvidos os que dizem que isso não é bom! Mais atrasados do que os que criticam essas 'inovações' são os que se consideram tão "modernos" que cegam para realidades tão evidentes e prejuizos tão aparentes!
Agora sim... podem me chamar de antiquado, atrasado ou cafona, mas saibam que música de qualidade não passa, não cansa, não desgasta! Uma coisa me consola: modismos e produtos puramente midiáticos têm data de validade curta! Então, adeus aos que aí estão fazendo suas porcarias ouditivas... Salve a música feita por verdadeiros músicos!!!
sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
Capitólio, São José e Amigão!
A restauração da Maciel Pinheiro foi uma piada de mal gosto e cara! Não se respeita layout da paisagem restaurada, as calçadas estão esburacadas e é muito mais seguro andar pelo asfalto junto dos carros que são (des)controlados pelos agentes (antipaticíssimos) da STTP. A prefeitura faz vistas grossas às placas recolocadas pelos logistas fechando as fachadas do maoir aglomerado de Art'Decor das Américas.
O Cine Capitólio: Um símbolo da cidade que marcou gerações é fechado e utilizado pela prefeitura como uma espécie de 'almoxarifado' de material de construção, o que é um desperdicio de dinheiro e uma burrice cultural histórica. Localizado no miolo da cidade e de frente à praça mais movimentada da Rainha da Borborema e a poucos metros do Teatro Municipal Severino Cabral. Se for falta de capacidade administrativa providencie-se que a iniciativa privada administre e faça com que o prédio volte a ser o Cine Capitólio.
Enquanto isso Campina continua sem um Cinema no centro da cidade...
O Cine São José: Restaurado para ser um... quem sabe!? Após a reforma de alguns anos e alguns milhares de Reais atrás o Cine São José voltou a ser abrigo de mentigos, o fez do nosso famoso Cineminha uma das nossas grandes frustrações.
Enquanto isso Campina continua sem um Cinema no centro da cidade...
O Amigão: com mais de 30 anos de construção o velho Ernani Sátiro virou uma sátira... não é possível que deixem um monumento arquitetônico e histórico de nossa Campina aos frangalhos, com infiltrações que devem estar gerando peixes, a superficie de cimento que já descascou quase por completa, os banheiros que são preferíveis não usá-los, túnes de atletas que parecem mais sarcófagos egipcios...
A nossa Grande Campina precisa de socorro... Ou será que temos de frequentar cinema de Shopping Center para sempre? ou mesmo precisaremos ver Galo e Raposa na Ilha do Retiro?
Adeus Ginásio César Ribeiro...
Adeus Estádio PLinio Lemos...
Adeus às quadras de bairros e campos de peladas...
Minha linda Campina às vezes me cansa! Só Deus!
Sem assunto pra escrever
quinta-feira, 6 de novembro de 2008
XXI d.C.
Entrar por esta porta não é verdade
Sair desse mundo não é verdade
Entrar sem sair é verdade, assim
Como não Ser também É.
Resistir não é verdade
Aceitar tudo não seria verdade
Se não fosse verdade a mentira do hoje
E a incerteza do depois de amanhã
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
Cidade de Deus e o exemplo de como fazer cinema!
Em um “longa” Fernando Meirelles fotografa a banalização da morte nas favelas cariocas com crueza e beleza. Partindo da década de 60
Jogando futebol com os meninos do bairro Bené (Phellipe Haagensen) e Dadinho (Douglas Silva) vão construindo uma sólida amizade. Os dois e seus colegas, todos moradores do bairro “Cidade de Deus” crescem na rua e logo se deparam com o volumoso aumento da criminalidade, conseqüência direta do descaso das autoridades governamentais para com o crescimento desordenado da cidade do Rio de Janeiro. Não aceitando como alternativa as poucas formas de subempregos que os familiares e outros poucos da comunidade tinham estes jovens agarram, como o mais legítimo meio de “crescimento”, a criminalidade: começando por assaltos, depois como agentes do tráfico de drogas, por fim líderes de bocas de fumo. Este último emprego confere-lhes autoridade, poder e fama legitimizados pela comunidade que recebia em troca do apoio, “proteção”, e emprego já que a forma mais rápida de conseguir dinheiro era trabalhando para o tráfico.
Toda essa trama é narrada por um menino, Buscapé, personagem do jovem e habilidoso Alexandre Rodrigues, que por pouco não se torna mais um do enorme grupo de jovens delinqüentes daquele complexo de favelas que “de Deus” não tem nada.
Mesmo sendo uma produção barata para níveis hollyoodianos o filme conseguiu um feito inimaginável: trazer ao público a realidade dos subúrbios dos grandes centros com um alto grau de verossimilhança, feito ainda não alcançado em outras películas da cinematografia brasileira. Este brilho não foi simples fruto do acaso, como o próprio responsável, Fernando Meirelles, disse em entrevista à Rede Globo que não tinha pretensões tão grandes, como por exemplo ser cotado para o Oscar de melhor filme, mas sim por ter sido burilado da forma original e inovadora com que a equipe de produção o fez.
Produzir cinema no Brasil já não é tão fácil ainda mais quando se desenvolve um projeto com amadores que só descobrem o que é cinema quando já é parte dele, visto terem passado por um curso razoavelmente breve (oito meses) sob a direção de Guti Fraga. A imensa maioria dos atores que protagonizaram é oriunda da própria comunidade favelada retratada na obra.
É clara a qualidade da montagem coordenada sob os olhares sagazes de Daniel Rezende e dos efeitos significativos do experiente Renato Batata, contudo, mesmo sendo tão bons não são comparáveis às produções do mesmo estilo tais como TRAFFIC protagonizado perfeitamente por Benício Del Toro ou até mesmo do pobre, conteudisticamente falando, GUNGS DE NOVA YORK que lava as ruas da periferia de sangue numa quase total desumanização só interrompida por um dos tradicionais romances que entremeiam as narrativas cinematográficas norte-americanas. Mesmo não sendo o melhor, nos aspectos acima citados, CIDADE DE DEUS ainda é bem melhor filme que o segundo. O filme de Meirelles não romantiza as relações afetivas entre os personagens bandidos como acontece com os perigosos detentos de CARANDIRU, que é dada mais ênfase ao lado do “bom selvagem” de J.J. Russeaut, que, propriamente, ao lado criminoso pelo qual eles estão sendo punidos e mantidos apartados do convívio em sociedade, ao contrário, o diretor tenazmente deixa evidente que os vínculos afetivos são abalados quando o assunto é ponto de comercialização de entorpecente, armas e poder. Não há nenhum romance desenvolvido e evidenciado do início ao fim do filme. Tampouco líder que herde poder ou que quando o tenha não perca ou seja assassinado. Vale salientar que o diretor disse que o que vimos era apenas o “jardim de infância do tráfico” do Rio de Janeiro. Há de se convir que as cenas pintadas no cenário carioca dos últimos anos não deixa a desejar a lugares como Sarajevo ou Beirute.
Enfim, o Brasil tem um filme que com beleza artística incontestável, com justificado uso de uma linguagem chula, com belíssimas cenas de exterior, coisa que sempre fomos pobres, ainda, que fugiu do apelo para cenas de sexo deslocadas como estamos acostumados ver na maioria de nossas películas. CIDADE DE DEUS foi importante para a arte nacional por dois motivos: primeiro pelos prêmios que recebeu e segundo por ter-nos premiado com um jeito novo de fazer CINEMA.
Talvez o cinama do Brasil tenha surgido aí. O que se fez antes é mera tentativa.
terça-feira, 30 de setembro de 2008
Um poema para ela
ela não me fala muito
mas me fala o mínimo
me diz com o máximo
olhar
a mínima palavra
desejo
o superior concentramento
dos lábios que gesticulam
dos olhos tesos e claros
claridade sem evidências
deleito na ansiedade
fervo em seu acanhamento
no seu olho penetro
retina
destina minha alma
d'Ela.
quarta-feira, 24 de setembro de 2008
(uma lembraça de Wally Salomão, esse marginal que o mundo odiou, amou)
Pegue uma fatia de Theodor Adorno
Adicione uma posta de Paul Celan
Limpe antes os laivos de forno crematório
Até torná-la magra-enigmática
Cozinhe em banho-maria
Fogo bem baixo
E depois leve ao Departamento de Letras
Para o douto Professor dourar.
domingo, 21 de setembro de 2008
Anuário
São mais dezembrais
Que as noites
De dezembro
As noites de janeiro
São mais quentes
Que as geladas noites
Juninas
As noites de junho
São mais frias que as frias
Noites fevereiras
De dezembro
Os meses são as mulheres
Coloridas setembrais
Cinzentas como maio
Quentes como março
Frias como julho
Santas como abril
Profanas como fevereiro
Molhadas como agosto
Secas como novembro
Amenas como outubro
Gostosas como junho
Brilhantes como janeiro
Finais como dezembro.
sexta-feira, 12 de setembro de 2008
Poemas Inconjuntos (Alberto Caeiro)
Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.
Falas de civilização, e de não dever ser,
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as cousas humanas postas desta maneira.
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seria melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as cousas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as cousas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!
Entre o que vejo de um campo e o que vejo de outro campo
Passa um momento uma figura de homem.
Os seus passos vão com «ele» na mesma realidade,
Mas eu reparo para ele e para eles, e são duas cousas:
O «homem» vai andando com as suas ideias, falso e estrangeiro,
E os passos vão com o sistema antigo que faz pernas andar,
Olho-o de longe sem opinião nenhuma.
Que perfeito que é nele o que ele é – o seu corpo,
A sua verdadeira realidade que não tem desejos nem esperanças,
Mas músculos e a maneira certa e impessoal de os usar.
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
Olhar sobre Campina
Era como se um tiranossauro
Passasse
Na Maciel Pinheiro
Como se fossem carros
Que passam
Esmagando pequeninos homenzinhos
Azuis
Que sopram apitos estridentes
Que não servem para nada
Tu és assim
Afobada como a grandeza
Fingida de Campina
Pequenina grande Campina!
De jurássicos homens
A desfilar
Como se um dinossauro
Passasse.
sábado, 6 de setembro de 2008
Poema sóbrio
Dentro de mim ondas revoltas
Esbarram e me maltratam
O sangue que gira em mim
Me gela e me cresta e me engasta
Como um susto súbito
Recado de morte
Que a todo instante
Sopra no meu ouvido.
Talvez eu só tenha essa vida
Talvez eu tenha outras mil
Talvez eu tenha o paraíso
Essa vida eu perdera talvez
Que são os pardais senão
A realização plena da vida
Que saiu de mim como uma tosse
Seca?
E os dias amanhecem
E se faz dia sem aurora,
Como outrora
Os pássaros cantam suas canções
Como de costume, rotina.
Viver é como uma vodca
Quando não se está com vontade
De beber
E todos ao redor bebem
Sorridentes
Enquanto a náusea lhe bebe.
Dois homens sorriem num bar
Como se o viver latejasse
Dentro deles.
Ondas de vida se avolumam
E se quebram nas rochas
Postas após as vodcas.
quarta-feira, 6 de agosto de 2008
Tic-tac-tic (ao meu avô)
E refazer meu nascimento
Eu não queria voltar o tempo
Pra dar vida a amigos mortos
Eu não queria voltar o tempo
Pra sentir o cafuné de minha avó
Eu não queria voltar o tempo
Pra dar saúde aos meus pais
Eu não queria voltar o tempo
Pra novamente fazer dezoito anos
Eu não queria voltar o tempo
Pra contemplar o riso das Camélias
Eu não queria voltar o tempo
Para estes momentos.
Para estes momentos
Eu queria parar o
tem
po.
20/12/03
segunda-feira, 28 de julho de 2008
Retrato I
É muito difícil passar das linhas do dia
Meu dia é cinza
Da cor do fogo morto
Ó que linda essa paisagem
No quadro da parede esquecida!
Minha mãe diria que no Éden era assim
Eu também acho que era
Mas o casal não quis estar lá por muito tempo
Só até descobrirem que a beleza esta relacionada á perfeição
Ó Deus que mundo feio...
Ajuda-me a entender como seria o Éden
A minha mãe tem mania de inferioridade
O paraíso que ela me apresentou
Tem cores apagadas e cinzentas como um retrato do Iraque
Iraque...
O meu livro de história fala que o Iraque é onde era a Babilônia
E que a Babilônia era onde era o Éden
Pois é... as coisas são como são
Céu e inferno têm a distância dos dois ponteiros
Do meu relógio
Retrato II
O quintal era daqueles das tias velhas
Cheio de pés de cana que cheiravam doces
um verde bandeirou na minha infância até os dias de hoje
a cadeira do meu avô nunca saiu dali de perto da caqueira
que ficava perto do cercado das canas-de-açúcar
O velho nunca deu trégua às nossas travessuras de meninos sempre bem comportados
- sai daí seu cabra!!!
Galinhas quando viam raposa
Como eram doces as canas permitidas sem
Gritos
mais doces todavia
foram as que lentamente minha avó cortava
descascava partia arrancava talos
Como era bom esbagaçar
O mel no dente
Sentado no pé-da-parede no oitão da casa-velha
Hoje eu pinto um quadro com as tintas do que ficou
No quintal de meus dias.
Retrato III
Clima de festa e uma certa dose de expectativa
Enchia os dias de um lirismo feliz
Da cor laranja que faz a barra na Serra da Borborema
Pintar a casa
Roupa nova
Passar de ano
Ver o tio que vem de longe
Encontro em casa com todos juntos e comer alguma coisa na
[casa da tia mais prestimosa e meiga do mundo
Compradas as tintas e feitos os primeiros preparativos
Minha mãe não permitia um vacilo sequer
A barra devia estar perfeita
- não suja os móveis...
- não deixa cair tinta no chão Antônio!
Sob uma chuva de recomendações pintava o meu pai a casa tão pequena e nossa como era a casa do João de Barro
Meu pai sem palavras e muitos suores e rubores
Ele é daqueles homens de cor de camarão
Cor irritada que não condiz com seu modo de estar no mundo
Eu queria sempre dar uma ajuda
Esta sempre era para o que meu pai mais gostava:
Uma pergunta por minuto
Ele intrépido sempre a me responder e gracejar com versos já tão ouvidos
(que eu nunca decorei só pra poder pedi-los novamente)
Meu pai era delicado como a barra cobrada por minha mãe
E mais fino que o esperançoso garrafão de vidro antigo que ficava na mesa da sala
Nunca peguei num pincel mas aprendi o segredo das cores que faziam
a minha infância mais tênue
Eu fiz a ultima pergunta antes de eu crescer:
Por que o senhor pinta melhor que os outros?
“Eu não pinto melhor que ninguém...
É que eu vejo a poesia das coisas!”
Foi assim que a minha infância ganhou molduras.
sexta-feira, 25 de julho de 2008
Flor da noite
pela janela.
Um sol de tom azul prateado
que
molhava meu corpo com esmero e doçura.
Eu não sei se é frio ou é apenas sono, mas, sei que sinto.
O que sinto eu não sei bem.
Os meus cabelos me encobrem parcialmente meu rosto que não quero mostrar.
Minha cara é minha alma por isso evito o Espelho.
O que quero não se traduz, não se compõe.
O que sou é vasto.
Sou profunda e o espelho é raso como a superfície
das águas.
O meu olhar está inclinado
porque eu nego esse horizonte que não foi eu que escolhi.
Eu me desmonto e me desfaço.
Eu estou chovendo
em laivos de prata que caem
gota
a
gota
do meu olhar.
Adeilson Xavier
sexta-feira, 4 de julho de 2008
Inverno
nem a ausência de um cobertor
nem a falta que me divide
nem a casa de janelas abertas
nem a cama que esfria
ou a janela que não fecha
O que me incomoda no inverno
a essa ausência das coisas mais quentes
das coisas que são tidas com os amigos
das que são conseguidas com um abraço
das que não temos mais na casa dos avós
das que não conseguimos mais cheirar
com o cheiro próprio das casas velhas
dos sítios antigos e distantes
das rodas de parentes ao conversar coisas
não importa que coisas sejam
O inverno devia deixar as nossas vidas em paz
e esquentar porque frio não tem mais graça
porque as casas estão ermeticamente lacradas
com portões e janelas e cercas intranspuníveis
e os amigos casaram e estão tão distantes...
as calçadas não têm mais marcas de cirandas
já não se riscam sóis em carvão ou giz
pela penitências de uma claridade quente
o inverno está morto e sem graça e frio
não o frio que é frio no inverno
é um frio mais frio que o frio...
quarta-feira, 18 de junho de 2008
antes das seis
... ela tem medo da hora de anoitecer, entre cinco e seis da tarde, depende do período do ano, entende? as coisas vão tomando um ar sombrio e enche de agonia a pessoa, às vezes ela diz coisas assim sem se importar com a ordem lógica gramatical, às vezes ela é uma jornalista contista psicóloga poeta sei lá mas tem vezes que é muito adulta mulher de voz guria e cara mansa de menina mimada, gata de casa de muita gente, mole como uma boneca de pano daquelas da feira com muito roje e batom mas que não tem força de ficar de pé como a Suzi, quero sumir hoje de tarde não sei pra onde mas ou vou fugir de mim, carregando ela dentro dela ou deixando numa rua qualquer sem esquinas, ela parece não querer sair daquele portão branco que a mãe dela tanto cuida que não fique aberto, ou queira talvez e eu ainda não saiba, o olho dela é escuro e doe, não me lembro de nada, tem uma memória muito seletiva conversando com ela vai ver que lhe fala de coisas interessantes e que não ficaram na mente dela para depois rememorar, uma tarde ela me chamou para assistir o pôr-do-sol de domingo junto com ela e eu não podia pois eu tinha um compromisso com amigos agendado há tempo, deveria ser bonito vê-la dizer que tem medo daquilo que estava na sua frente – quem sabe me abraçasse – e venceríamos a tarde montados na noite como São Jorge venceu o dragão montado num cavalo, da próxima vez quem vai fazer o convite sou eu, sentar numa pedra e contemplar a paisagem cheia de verde cor de hortelã e azul cor de mar, bom mesmo seria ver a tarde se indo empurrada pelo negrume noturno que vem para nos mostrar a beleza das estrelinhas que habitam o teto do mundo piscando como os olhos dela, uma chuva luminosa de cristal é o olho dela no riso-choro presente sempre, tenho certeza de que se ela visse um camelo de perto ela diria que ele é lindo e triste, é assim que ela vê as coisas sempre de dois lados dentro-e-fora, há dias que se distrai com uma música e no outro com a mesma chora, quando escuta a música por fora se diverte e quando escuta a música por dentro chora, acho que ela não pode escutar fados porque ela é muito lírica seria uma portuguesa se não fosse de onde ela é, acho que o oficio dela era para ser professora já que tem muita sensibilidade infantil, deveria ser uma daquelas a fazer do magistério um mãegistério, mas ela tem medo demais das coisas, as coisas têm um lado misterioso já que tem sempre o lado de dentro para ela, dentro do dia dentro da noite dentro da pedra dentro da água dentro do sol dentro da lua dentro de tudo tem algo mesmo que nada eu seja capaz de ver mas há quando ela olha, queria que você fizesse parte do meu feriado, eu não poderia dizer não afinal eu sempre quis isso, mergulhar nela como num mar vítreo cristalino e me banhar de alegria e doçura de seus pensamentos tão simples e penetrantes e tão densos, eu sou dela agora como uma corrente tem um pingente ela me tem e eu a tenho mas não tenho a exata precisão de sua força em mim pois diferente dela eu sou raso como um espelho,
domingo, 15 de junho de 2008
Agosto I
Era noite e esfriava
Banhadas de lua e acinzentadas
As calçadas do centro da cidade
Choravam as agruras de um dia sujo
Transeuntes que cuspiam suas almas
Tísicas e cheias de fuligem
Dos escapes, cannabis,
Um velho que dorme inerte
Com as marquises apagadas em flagelo
Trapos deitados ao vento penetrante
Das noites de agosto
Desgosto dos miseráveis inefáveis
Que se cobrem com o mais gradeado
Dos lençóis da vida
Corpos verticais em petição de morte
Vagam
Da modernidade de São Paulo 1999
Meu pai me disse que no céu
Há muitas estrelas e que quando garoto
Contava-as, sem conseguir enumerá-las.
Ele até mesmo me disse que são brancas.
Mas...
Como são brancas
Se as poucas que contei
Baliam vermelhas?
quarta-feira, 11 de junho de 2008
Primeiras letras!!
as andanças serão muitas, e as palavras
mínimas
só assim posso eu ser excessivo
em significados
muitas de minhas palavras serão
contidas caladas amordaçadas
com o maior de todos os beijos
_ a minha possibilidade de não dizer
não de dizer é um prêmio
calar é uma dádiva
ouvir é minha unção
extrema
!
sinônimoS
De manhã é o avesso da noite
Assim como a morte é o revés da vida
E a terra é o revés da água
O pó é o pedaço da pedra
O homem é o pedaço do nada
O nada é a parte de tudo
O cheiro é um pedaço da fruta
A mata é o pedaço da árvore
A árvore é o todo da mata
O quintal é o pedaço do homem
O homem é o pedaço da fruta
A fruta é um pedaço da árvore
A pedra é o inteiro do pó
O revés é o contrário da ida
A vinda é o contrário da vida
A ida é o caminho da morte
A vida é o conjunto de tudo
tu-do-tu-do-tu-do-tu-do-tu