sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Das solidões

A solidão se faz com braços
Que se largam
Que se soltam
Se-param

A vida se faz com solidões
Que se juntam
Que se matizam
Prismam

A vida é a solidão acontecida
A solidão de vida se consolida

Sólido-Diamante


quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Cantiga

A vida prepara pacotes
Carregados de presentes
Deixa na tua porta
Bate na tua janela
Fala nos teus sonhos
Inscreve nas tuas pedras
Pousa no teu quintal

A Vida é dadivosa
Modesta avó de um neto
Garante a tua surpresa
Congela diante dela
Teus olhos de desejo
Constroi a tua ânsia
Destroi a tua tristeza

A vida, amiga minha,
Me deu teus olhos pretos
Me fez ser teu menino
Abriu os olhos meus
Buscou lá no meu íntimo
A alma que tinha ido
Viver, mas, não viveu.

A tua palavra mansa
O teu riso de carmim
Fizeram por sua vez
Eu querer em meu jardim
Ah! orquídea que caía
Na distância esquecida
- Cai aqui perto de mim.


segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Tempos

Sobretudo o tempo
Sobre tudo tempo
Só (breve) o tempo

Sobre tu o tempo
Sobre tu dó do tempo
Sobre tudo do tempo

E sobre
Tu(dó)
Tem 




sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Ode aos estúpidos

Salve a ignorância dos que não amam
Aos que dizem "não há Deus"
Viva as mal amadas que nunca riem
Aos homens promíscuos
E aos adolescentes imbecilizados
E à moda que os imbeciliza
Salve a todos os gramáticos que não sabem escrever
E aos escritores que não escrevem sem métrica
Um abraço para os cantores de bandas anuais
Que ano que vem cantarão noutra banda menor ainda
E aos dançarinos que nun case apresentaram em teatro

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

latinamérica

De corpo e sangue 
De boca e beijo 
Borges e Galeano 
Lampejo 

De alma e cor 
Igreja e pejo 
Garcia e Llosa 
Sobejo 

Das duras linhas 
Do meu desejo 
Sorriso e luta 
Almejo 

Meu verso pouco 
Minha carne farta 
Assim com lima 
América Latina 

Te vejo

terça-feira, 12 de julho de 2011

Desfolhando

às vezes és pétala
às vezes és caule
às vezes és espinho
de cada ser teu
guardei uma face
és Rosa completa
Enraizada.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Ámbar

Pequena gota sinuosa
A escorrer entre os meus dedos
Cheiro de intensa doçura
Impregnada na capa do livro
De minha vida juvenil
Desejo que não se esvai
Gota que me atrai
Mínima grandeza matizada
No perfume da alma.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Epifania

E todas as coisa não são mais
as coisas que eram antes
antes de tudo ser
as coisas eram só coisas
a começarem a ser
Mas o tempo, esse estrangeiro que nos habita
mostra-nos de súbito
que tudo era
tudo foi
jaz

Não há armário
Não há cabide
Nem jaqueta
é o que o Tempo
faz

sábado, 2 de julho de 2011

Aos pés ou Olhos em chamas


Uns pés pesados, passados
Por cima como um prego
Perfurando o cravando na alma
Chagas de desejo
Dos pé que se tocam
Aos olhos que se encontram
Mortificações de distâncias
Corporificações de anseios
Descorbertas súbitas
O peso, o toque, a chama
Que arde e queima
Me-chama

Sobre frio e férias


(nas férias o bom é não fazer nada no frio o bom é não fazer nada a não ser o nada de estarmos juntos quentes moles cobertos e abraçados E quando estamos de férias é bom estarmos juntos e quentes e moles e abraçados mas sem termos a necessidade de separar porque o tempo que nos separa também é responsável por nos soldarmos uns aos outros e nos amalgamarmos e untarmo-nos no calor e na delícia de compartilharmos o que é bom e o que nos faz doces e moles e quentes porque amar é isso O fato de não seperarmos porque o tempo não pode ser total senhor supremo de nossas vidas já que a vida é maior que o tempo visto que o tempo passa e a memória da vida fica e como a memória é a vida a vida não acaba jamais A vida no inverno é mais vida que no verão e na primavera a vida é mais colorida que no inverno e no outono a vida não é quente nem é fria é caída como pétalas que o vento sopra mas que nunca será triste pois a tristeza não pode ser como a vida no inverno pois no inverno a vida não é chorosa e fria ou triste não no inverno a vida é fértil e úmida como quem ama e delicia-se de um beijo que escorre e escorre e escorre a vida nas férias ganha cara de eternidade e no frio ganha cara de verdade já que os corpos se tocam mais e se amam mais o corpo a cara o calor a boca o corpo corpo corpo quentes em cobertores e camas beijos e abraços)

sexta-feira, 17 de junho de 2011

O Corredor

No corredor o tempo
Corre
A cara séria
Morre
A rosa-boca
Abre
O riso branco
Morde

Pouco tempo...
Muita Noite
Sem café,
Só O corredor
Um para dentro
Outro para fora.

Distanciados.

O CAFÉ

Ela é
Ela cá
Nela fé
Cá-nela
chá
Cá ela

Café com Ela
é

domingo, 29 de maio de 2011

Porque é junho!

Porque é frio
Porque é a metade do caminho
perto do antes e do depois
Porque a coisa esquenta
(fogueira, corpo e colo)
Porque é mais perto do frio
Mais longe do quente
Porque não é distante de nada
É o meio de todo tempo
É antes do fim
E muito além do começo
Porque chove e molha
escorre, escorrega e suja de lama
Matando a secura da terra
Fazendo a terra mulher
Úmida, mole, fértil
Grávida de viço.

GALO, A grandeza que incomoda

Como sentem inveja do maior da Paraíba! Como implicam em ver-nos Pequenos! Porém, Crescemos na mesma proporção que nos tentam diminuir.
A imprensa, imprensada pela nossa grandeza, ainda não descobriu que as suas investidas só servem para colocar O MAIS QUERIDO em evidência, não notaram que a pugna que tem contra O MAIOR é vã, pois, a maior torcida do Estado, é a que mais tem participação no mercado esportivo (tv, internet, acessórios, camisas, brindes e comparecimento aos estádios), não dá crédito a esse bando de inescrupulosos antipropagandistas do futebol da Paraíba. Eles abarrotam jornais diários e sites de "pitacos", rádios e emissoras de tv com notícias às vezes falaciosas e especulativas para apenas saberem a repercussão na opinião pública e poderem armarem-se de "recursos" espúrios que promovam uma quebra na imagem do mais conhecido Time de Futebol da Paraíba. Chegaram ao ponto de na noite do primeiro jogo decisivo da segunda fase, anunciarem que havia uma "liminar" que impedia a realização do segundo jogo agendado para domingo (22/05/11).
Pergunto-me: O que leva o sub-time da capital armar tão estapafúrdio barraco? O que leva os jornalistinhas paraibanos estarem tão amplamente empolgados com a possibilidade do caos na competição? INVEJA.
Mas, o sentimento é tão medíocre que fica difícil de crer que o campeonato que teria tudo para terminar de forma primorosa, vai deixar rastros de incompetência, rusgas e perseguição escritos nos anais do certame.
A NOSSA GRANDEZA INCOMODA. Pior que isso, expõe os vícios dos medíocres: Os que não sabem perder (estes perdem muitas vezes), os que não saber reconhecer (estes são pequenos muitas vezes), os que não saber crescer (estes sumirão com o tempo), os que não têm competência (estes são os responsáveis pelo GALO ser o ÚNICO), pois meteram as suas equipes na sarjeta do futebol brasileiro.
Campeão da série B 1986, melhores campanhas de um time paraibano em competições nacionais, o único que tem suas finanças ajustadas, o único que tem casa "Estádio Presidente Vargas", isso mesmo o TREZE FUTEBOL CLUBE é o Único time paraibano a ter um estádio 'pra chamar de seu'. Que no Nordestão 2010 ganhou premiação por ter o maior público da competição. Estes são predicados do maior e mais perturbador clube de futebol da Paraíba. Dói, mas, é a mais pura verdade. Grandeza que nos orgulha, também nos vitima. Contudo, o GALO e a sua torcida agigantada superam e crescem nas adversidades.
Ao MAIS QUERIDO, GALO DA BORBOREMA, nosso carinho, amor e fidelidade eternos.
Vamos voar GALOOOOOO!

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Lua Nha Testemunha (Cesaria Evora)

Bô ka ta pensâ
nha kretxeu
Nen bô ka t'imajiâ,
o k'lonj di bó m ten sofridu.
.
Perguntâ
lua na séu
lua nha kompanhêra
di solidão.
Lua vagabunda di ispasu
ki ta konxê tud d'nha vida,
nha disventura,
El ê k' ta konta-bu
nha kretxeu
tud k'um ten sofridu
na ausênsia
y na distânsia.
.

Mundu, bô ten roladu ku mi
num jogu di kabra-séga,
sempri ta persigi-m,
Pa kada volta ki mundu da
el ta traze-m un dor
pa m txiga más pa Déuz

Mundu, bô ten roladu ku mi
num jogu di kabra-séga,
sempri ta persigi-m,
Pa kada volta ki mundu da
el ta traze-m un dor
pa m txiga más pa Déuz

Bô ka ta pensâ
nha kretxeu
Nen bô ka t'imajiâ,
o k'lonj di bó m ten sofridu.
.
Perguntâ
lua na séu
lua nha kompanhêra
di solidão.
Lua vagabunda di ispasu
ki ta konxê tud d'nha vida,
nha disventura,
El ê k' ta konta-bu
nha kretxeu
tud k'um ten sofridu
na ausênsia
y na distânsia.

Mundu, bô ten roladu ku mi
num jogu di kabra-séga,
sempri ta persigi-m,
Pa kada volta ki mundu da
el ta traze-m un dor
pa m txiga más pa Déuz

Mundu, bô ten roladu ku mi
num jogu di kabra-séga,
sempri ta persigi-m,
Pa kada volta ki mundu da
el ta traze-m un dor
pa m txiga más pa Déuz

(Linda Canção Caboverdiana, em Idioma Crioulo)

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Escritura

E tudo começou com uma página
Em branco
E depois foram-se escrevendo algumas
Palavras vazias
Que só os loucos e os bêbados encontrariam
Sentido.
Pois, não há
Nem o sentido da mais besta e oca
Das coisas que ainda não são coisas.
E a vaguidão tomou conta
Do não que não tem conta a pagar
Com nada.
Tudo começa como se começa um poema:
Com o vazio de algo...
Que eu... que nós...
E por nada tudo se acaba
Pontofinal

Azul e Amarelo

E de repente surgiu uma rosa azul
Não era rosa-dos-ventos mas
Era uma rosa que flutuava ao vento
Na noite fria quente de agosto

O céu negro e uma rua escura
(uma lua prateada fotografa)
não havia guardas, vigias
só uma rosa azul e um canário

polinização sublime, vida
as rosas gozam ao contato
amarelo-ouro do canário

o Pássaro perpassa distâncias
a Rosa exala e acalenta
a natureza refaz a vida

15/08/03

La Libertè

Il court vers la barrière...
Et, vite, il sante par-dessus.
As borboletas amarelas voam...
Campos verdes salpicados,
Amarelecidos.
E uma flor vermelha
Enfeita um céu
De brancas estrelas
[sumidas.

sábado, 16 de outubro de 2010

Loriley, a sereia

O encanto das pedras do além mar
não está nas pedras de além mar
está nas águas e nos cantos da ninfas
que no profundo habitam

O canto que encanta alma e ser
ser alma de desejo
desejo de encantar o ser

Loriley de cabelos longos e negros
alma branca e olhos negros
olhos e cabelos negros
vermelho de desejo
boca de vermelho cheia
vida que sangra em vida
A paixao que escorre dos seios
A boca, o olho, o cabelo
Corpo esguio de água embalsamado
frios leitos de espuma e sal...

Seria, mareia, me enleia...
Lori
Sorri
clareia!

terça-feira, 1 de junho de 2010

Arquitetura Poética (A João Cabral de Melo Neto)

Construirei um poema
seco e sem graça ou graxa
que deslise alma
minha poesia tem altura
dura e vida clara
- Tamanho de céu
formato cabralino.

O poema é castelo de cálcio
brancura de frio mármore
Mole como a coluna da serra
que desdobra o horizonte
e faz-se porta de sol dormir.

A dura pedra do caminho
Que Drummond não quis tirar
é hoje o meu espinho onde
me faz encravar
na alma de cada verso
que pretendo escavar
para ali eu colocar minha
casa de palavra
onde eu quero me encerrar.

domingo, 28 de março de 2010

A menina que espera

O que hei de esperar na vida
se o relógio passa como um foguete
se a vida passa e deixa rastros
ou rugas
O que devo esperar? e quanto?
como ser eu mesma nesse mundo
que nem me espera nascer
e já me cobra como adulta?
A vida é vasta em mim
e curta fora de mim
O tempo me diz pouco sobre ele mesmo
Mas me diz o bastante para que saiba
que devo esperar... esperar...
Mas, espero com desejo
de que o tempo nao passe
Estou confusa e nao sei se devo
esperar que o tempo mude, passe ou pare.
Prefiro dormir em meu quarto cheio de mitos,
monstros (de pelúcia) e panos com meu cheiro.
A vida é maior que a minha alma
Nao sei esperar nada da vida
Nao sei o que é vida
Eu apenas quero a vida
Pois,
A vida é o meu desejo! E
Isso nunca vai passar.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

(...)

Na calada da noite
as coisas vão acontecendo na minha alma,
como um calor que me sua
como um vapor de caldeira,
como a tampa do vulcão que encobre a alma
que sai de dentro de meu dia
sempre que a noite ergue-se.
Hoje é desses dias de noite maior que o dia
e dia mais mole que a folha pendurada do jasmineiro que nem o beijaflor é capaz de ter pra si,
ela cai cai cai igual as gotinhas de desejo que pingam de minha boca semiaberta.
De mim pingam no limbo da noite o teu desejo e a tua alminha de anjo.
Pomares, lavouras, pastos:
tua alma me alimenta com suco da poesia e a dureza das raízes...
embebido dentro de mel e sal me faz suar.
A tua delicadeza é nuvem que transborda água fria quente morna ocre e carmim,
em mim.
Tu entras e deixas a delicia de um olhar
cortando o corte de um punhal de dois lados.
O lado de dentro e de mais dentro ainda,
em ti não tenho superfície...
você se faz minha carne e epiderme sangue e saliva, minha.
Minha és em meus calores
e sempre estará acesa-vela de meu suor.
És fado de Amália com gim e formosura
...airosa flor de lua, luz.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

ESTREITO


mesmo assim eu não me sinto bem, não importa se agora eu sou livre como zéfiros ou córregos ainda não encontrados pelo homem, não importa, eu sou escravo de minha liberdade que me garante o direito, o direito e o poder demasiados de tudo, isso é uma prisão, não ter medidas certas me aprisiona como ter medidas herméticas, a liberdade é um idílio sedicioso e vago, não a vaguidão de campos vastos; sou denotativo nesse termo, digo vago de vazio de não ter de não ser de não conter, tudo é vago nesse instante em que minha vida se traduz em nada, há uma vastidão em mim que me não permito ir, caminhar ali não é o que eu quero, quero o que não sei e tenho o que sei que não quero, minha estada é impermanente instável e dissoluta, ah como queria uma casa de quartos pequenos do tamanho das linhas do meu horizonte! mas eu só tenho a presença constante do mais aberto dos caminhos, isso me atormenta, estaria eu acostumado demais à latinamérica fidelíssima aos seus donos, meus limites não têm beira nem alma têm o vão das coisas que posso e me recuso porque sei que não devo, ainda insisto nesse mesmo dilema maniqueísta da duplicidade ser/ter está/é poder/dever, não sei do mais, sei do menos de mim, de minhas limitações espaciais temporais, eu sou uma narrativa presa aos velhos ditames estruturais dos folhetos policias de Londres, não importa tenha Joyce nascido ou não, eu sou nada mais que uma notícia de jornal safado que não perpassa nem mesmo as zonas limítrofes do dia e já deixa de ter relevância, sentido, sentidos isso sim, nortes, rotas, vielas abertas sem rumo como nos bairros antigos dos filmes italianos que já não passam mais, um beco se eternizou na minha memória, mesmo que eu não quisesse ele vai sempre estar lá, porque na memória nós não temos limites e mais uma vez somos surpreendidos com a nossa queixa de que tudo que devia ter passado não passou e agora só tem a mais completa presença dentro e fora de nossos olhos de lua fria, de noite que não passa, mas a noite passa por cima de tudo menos dos nossos pensamentos abandonados no caminhos estreitos de uma só passagem, a vida se tem dobrado em duas para dar-nos conta da sua enormidade e só temos visto o ser sendo multiplicado em dimensões vastas e dissipadas injuntáveis como quebra-cabeças em caixa de brinquedo antigo, sempre falta pedaços, quando não, disposição de compor, eu desisto desse jogo e componho um novo sem as peças que faltam, uso apenas o vazio como componente de um espaço que completa e torna tudo mais cheio de nada, eu sou a peça que se perdeu no tempo e no espaço de mim mesmo

Samba Crioula

morena da cor de canela, me espera
me ama e me bolina, menina
você me deixa louco, um pouco
dourada que me fascina, felina
sentada na beira da praia, arraia
calor doçura de mel, meu céu.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

FOGO BRANCO

A tua pele quente-branca morna
mole e doce seda e gasimira
A alma me aquece como numa fornalha
e a boca tece seu bordado
rio que corta a mata profunda
caldo quente que me suga
caldo gente que me engula
hálito de baunilha e mel
corpo, colo, peito e lingua
alma doce em sonho mingua"

sábado, 5 de setembro de 2009

IRACEMA

Mas como pode ser
esse jeito de andar que deixa
o corpo mole como se nadasse
ou voasse numa leveza quase etérea,
como pode esse voar tão baixo
e rasante,
serpenteando no chão,
lagarto no chão quente do serrado.

Uma borboleta é um beijo de asas,
me pousa,
morena,
me néctar, me poliniza de ti.

Anjo de morte e amor, mor,
te plâncton como um grande peixe que engole.
Me enraízo-te.
Sugo tuas seivas e nutrientes,
tua água me afoga e me batiza.
Unta-me em plasma,
envolve minha alma tua.
Saliva-me.
Salva-me.
Sal em mim.
Salte em mim.
Sal.
Mel.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

c@mpina.pb

(aos meus alunos)

É sexta-feira na praça da Bandeira
Olhos violetas-verdes-azuis-castanhos
Sorrisos brancos pintados de nuvem
Caras que brilham metalizadas
umbigo
nariz
sobrancelha
língua
Que língua fala essa praça?
Esse povo?
[tão louco é ver e ouvir]
Entender?!
Tipo assim...
Sei lá.

Soneto de amor III


Quando um poeta erra
O mundo acinzenta
Os pássaros pousam
As crianças não riem

Os homens não guerreiam
As bombas não explodem
Os bêbados não cantam
Os bares não abrem

Quando um poeta erra
Os significados mudam
As palavras empobrecem

As metáforas inexistem
Os homens acertam os alvos
As verdades são verdades

Soneto de amor II



A sua timidez devassa arrepia
Espanta e congela de gozo
De nojo, de pavor, de amor,
De surpresa, agonia e medo.

A palavra é uma coisa viva
Que remexe dentro e fora
Morde fere esfola. Alisa
Com voz mansa e tênue.

“La parole” é uma coisa morta:
[uma vela na mão de um cego]
uma lua embaixo da cama

As palavra são todas as coisas
Os homens são palavras não-ditas
Bem ditas, mal ditas, neológicas.

O VOO DA GUARÁ VERMELHA observações teoricas

Toda simbologia do sangue no pensamento judaico-cristão está relacionada à idéia de julgamento e de resgate (este último por vezes já referido). A ajuda prestada por Rosálio à pequena ave é metonimicamente representativa do laço criado entre ele e a personagem aidética Irene. O ‘resgate’ se deu quando ele desvencilha o pobre animal das mãos negras da morte iminente, caracterizada pelo enroscamento do bicho em galhos arbustivos, analogamente ao que acontece com Irene, prostituta doente em petição de miséria que está na ‘rua da amargura’ quando é encontrada por Rosálio. Um prostíbulo é o galho de “espinhos” que envolve esta já fragilizada ave de penas tão vermelhas, chamada Irene.

Rosálio sente dó, tanto dessa mulher!, faz lembrar aquela guará, vermelha, de pernas longas e finas como caniço, que ele uma vez encontrou enredado nos galhos de um espinheiro, as pernas ainda mais rubras, tintas de sangue que ele soltou e quisera curar mas que, descrente, arisca, fugia dele, para quem sabe?, sangrar até morrer, sozinha, desamparada naquele ermo tão longe dos mangues de onde viera; mas esta não, esta vem cair no seu peito, não foge, Rosálio não deixa, faz dos braços cerca em volta dela, embala, devagarzinho, e começa a contar:
Uma vez eu vinha só, caminhando por um ermo, somente eu e Deus, naquele lugar tão longe, um descampado sem fim, de capoeira seca e rala, vinha buscando lugar que fosse de gente viva onde houvesse descansar e então, naquele silêncio, ouvi um gemido triste de cortar coração e vi uma ave guará enredada em um espinheiro, se debatendo coitada... (p. 18, 19)

O sangue de Irene era a sua maior desventura. Trazia a sua morte e a sua história. Dava-lha a alcunha de ‘puta velha doente’, o que lhe rendia muitas dores e perdas, visto que a sua vida era conseguida por sexo em troca de dinheiro. O mal de Irene estava no sangue, ali também estava o seu sustento. O respeito e a perseverança que a personagem desenvolve são o que há de mais intenso nesta narrativa. A insistência de seus parceiros em fazer sexo sem preservativo e a resistência dela, mesmo sob violência, era a prova de sua ética e moral.

Irene, cansada, cansada, como custa esforço não pensar em nada!, como custa afastar do pensamento a criança nos braços encarquilhados da velha naquele barraco fincado na lama, o papel amarelo com o resultado do exame, o médico, falando, falando, falando o tempo passando , passando, passando numa correria, quase todo dia já é segunda-feira, ir levar um dinheiro para a velha, ir saber se o remédio prometido chegou, pegar o pacote de camisinhas e ouvir a assistente social lhe dizer que mude de vida [...] Engraçada aquela assistente social, “deixe essa vida”, está certo, eu deixo essa vida, não me importo de tudo se acabar agorinha, que esta minha vida só tem uma porta, que dá para o cemitério, mas a senhora vai tomar conta do menino e da velha? (p. 12, 13)

Estes conceitos (ética e moral) são difíceis de serem colocados assim com muita espontaneidade, mas como já comentado acima, esta é uma das características mais fortes de Maria Valéria Rezende, a sua ousadia e confrontação de status quo tão entrincheirados na sociedade latino-americana ainda cristianizada (a visão de mundo da autora talvez tenha muito que dizer nesta obra, uma vez que ela pertence a uma ordem religiosa católica), principalmente quando se trata de escritura/representação de mulheres na literatura.
A paixão de Irene é paralela à paixão dos festejos pascoais judaicos. Uma paixão pela vida. Uma paixão que ressuscita. O encontro de Rosálio com Irene salva-lhe também da morte em vida, do estado de vegetatividade humana, da desolação e do abandono – esta vem cair no seu peito, não foge, Rosálio não deixa, faz dos braços cerca em volta dela, embala, devagarinho (p. 19). Os vazios existenciais de ambos os personagens passam a ser preenchidos com palavras. Palavras de salvação. A Palavra. O Verbo. Voltando ao universo judaico-cristão que permeia esta obra, se é que é possível sair deste. As lacunas começam a ser preenchidas quando o casal descobre que o que mais precisavam era o conhecimento: “E conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará”. (João 8:32)
A liberdade é uma condição adquirida (Comte-Sponville, 2002) que Irene tem como um doutor pela Sorbonne talvez não tenha. Irene tem a liberdade maior dada a sua condição de mulher. Longe de ser a condição idealizada por Flaubert com a sua Bovary impetuosa e cheio de quereres e fazeres, pois, o querer e o fazer de Irene são limitados pelas mesmas causas que a tornam livre. A protagonista assume uma condição de liberdade que a nossa sociedade só permite àqueles a quem ela não dá mais importância e relega à condição marginal e subalterna.

Rosálio vê primeiro a mancha vermelha em movimento, surpreendendo-o na dobra da esquina, luz, lufada de ar que alivia a garganta engasgada pelo cinzento, só depois vê a mulher dentro do vestido encarnado, a metade de um sorriso aparecendo devagarinho na cara dela, a mão acenando repetidamente “vem, vem”, e ele vai. (p. 15)

Irene pode agora ser prostituta e professora, assumindo uma condição de humanização jamais vista em nossa literatura ainda tão enraizada dos ditames estéticos dos românticos e realistas do século XIX, que elevam a mulher à condição idealizada de beleza como ainda atribui a ela uma pompa burguesa e glamorosa sem permitir-lhe a possibilidade de ser sujeito de sua própria existência, condicionando-a a um lugar de obediência ou subversão do padrão de vida masculinista da época.
A maior condição de livre que notamos na prostituta Irene é a possibilidade que ela tem de ser ela mesma e fiel a sua própria condição (des)centralizada. Neste caso é ainda mais clara a proposição da autora que em sua inegável posição de humanista tem em Irene o símbolo do que não é exceção, mas do que é mais comum no mundo de coisas reais de onde ela arrancou esta personagem. Daí dizermos anteriormente que a narrativa em foco caracteriza-se pela “vocação” neorealista de literatura, uma vez que a história contada ou ficcionalizada não foi filtrada pelas idéias românticas e apenas estéticas da percepção do mundo: há a construção de uma filosofia de vida pautada na cooptação do real que é incorporado à teia ficcional, e nesta elabora-se uma visão de mundo não romantizada, mas capaz de fornecer subsídios discursivos para a compreensão do sujeito humano naquilo que ele mais é como pessoa.
A posição de Irene como sendo capaz de ser mãe solteira, prostituta, doente, órfã, desprovida de projetos sociais e de um lar sem dignidade humana a põe não no patamar da miséria humana e sim num grau da capacidade de resistência. Resistir para Irene não era uma possibilidade, era a única forma de vida possível a ela, enquanto ainda havia força no sangue que a impelia gradativamente para a morte. Em sua ganância pela vida, como as aves quando são abatidas, trabalha arduamente na busca de conseguir o alimento do filho que não mora com ela, mas está sob sua guarda econômica, e a sua ajudadora, ‘a Velha’, que dele cuidava. Já diria o provérbio popular que ‘felicidade não é ter o que se quer, mas querer o que se tem’. Este é o caso de nossa protagonista. Querer viver e acreditar que é possível ser quando tudo funciona ao derredor do ter, manchado de vermelho.
A paixão encontrada nesta obra recobre também a personagem Rosálio que tem em seu itinerário de vida uma mala a ser carregada. Uma fortuna lhe acompanha em cada passo dado em busca da vida, que aos seus olhos estava ‘logo ali adiante’. A tônica de sua vida era continuar ‘sendo’. O estado de cigano que vivia Rosálio é símbolo maior de sua paixão pela vida que ele carregava parte no “chocalho fatídico dos ossos”, como cantava Augusto dos Anjos, parte na mala que arrastava mundo a fora. Os livros carcomidos, a ausência do letramento e o desejo ler são o tripé que sustenta esta narrativa de Rezende.
A vida foi a escola do personagem Rosálio, visto que dela ele herda toda aprendizagem e sabedoria prática para poder se estabelecer em seu sonho andarilho. Homem adulto de tosco trato e muita poesia na alma, Rosálio tem seu mundo restabelecido no encontro de sua perdição/libertação, ou seja, quando encontra Irene numa zona de meretrício e não tem dinheiro para pagar pelo serviço que lhe era oferecido. Ele trazia na ausência do dinheiro uma preciosidade muito mais contundente: a alma.

Partiu confiado no faro, procurando o encarnado do vestido da mulher, deu voltas, desatinou, se perdeu, reencontrou e por fim vê a janela onde, vestida de verde, reconhece a mulher triste da qual nem o nome sabe, só sabe que ela esperava palavras que ele trazia [...] senta na cama cambaia, recosta-se em almofadas, abre a folha imaculada, molha a ponta do lápis na língua pálida e escreve: A história da guará vermelha. (p. 23) (o negrito é meu)

Alma de homem e não de cliente, pois para Irene o cliente não era um homem, era um freguês. Mas, Rosálio, que desde sua chegada àquele quarto era homem e não freguês, devido a sua condição de desprovimento de dinheiro, requisito maior no trato homem/mulher no submundo do sexo, queria uma alma.
A metáfora da caixa de histórias na vida de Rosálio pode ser vista como uma carga imaterial. No mundo da alta modernidade é de se imaginar que as pessoas acumulem bens e se fartem do que lhes enchem a os olhos e a casa, mas não enchem a alma; no caso do nosso quase-herói é o contrario. A caixa se vai esvaziando, e a cada dia ele vive ao lado de nossa quase-heroína. O não ter ganho dimensões maiores quando os sujeitos não aspiram nem de forma mais distante qualquer tipo de ascensão social ou econômica, como também não demonstram nenhuma forma de conformismo ou catastrofismo determinante, eles são apenas o que são em suas existências densas e esvaziadas ao mesmo tempo.

O Homem entrou de mansinho, está parado atrás dela, com sua caixa na mão, [negrito meu] escutando o que ela diz sorrindo move a cabeça no gesto de quem diz não, pousa com todo cuidado a caixa de livros no chão, Põe-lhe as mãos quentes nos ombros e a vira para seu peito, “não diga tanta besteira que amor não é assim, o amor é como um menino que não sabe fazer contas nem de perda nem de ganho, vive desacautelado, não tem lei, não tem juízo, não se explica nem se entende, é charada e susto, mistério.(p. 70)


O volume que Rosálio traz é muito mais símbolo de suas aspirações humanas que baú de saudades e tesouros materiais.
À medida que as narrativas vão sendo retiradas de dentro das linhas daqueles velhos livros, as coisas passam a ter novos moldes. A lembrança do velho bugre que lhe deixara estas relíquias era desobstruente. Esta abria para o homem Rosálio o túnel de seu passado e de sua origem que quase se perdem na cinzenta e vaga expansão de sua nulidade atávica.
Irene ascende na vida de Rosálio como a princesa Sherazade na vida de seu príncipe Sultão. Rosálio, ao contrário do Sultão que ouvia histórias que salvavam a sua amante (já que este era algoz desta), o nordestino, tanto ouvia histórias como contava histórias que salvavam tanto a ele quanto a ela. Era um tesouro compartilhado que enriquecia a todos os que por perto se chegassem, como no caso de Anjinha, amiga de Irene, também prostituída e aidética, que, se desfazendo da vida, mantinha relações sexuais sem preservativo com seus clientes numa tentativa de vingança pelo mal adquirido, mas que passa a ser fiel escudeira da amiga nas horas de ouvir as histórias retiradas do “livro da vida” de Rosálio ou dos livros carregados por este numa caixa que era o seu único legado material.

Irene abre os olhos e vê o homem que se calou e parece estar mirando muito longe, deixando no ar um eco, “pra um outro mundo, pra um outro mundo” quem?, eu?, há muito tempo que Irene sabe que lhe basta dar um passo, que o outro mundo é logo ali, mas que ficar mais um dia, que ouvir mais da histórias que o homem lhe dá de graça, mesmo que não ouça tudo, mesmo que às vezes cochile, essa voz lhe faz tão bem!, Anjinha já adormeceu, encolhida ao pé da porta, Irene fecha os olhos sem querer.
Rosálio leva sua caixa e leva a decepção de hoje ainda não ouvir ler do livro de mil histórias, mas há de ter paciência, que a pobre mulher que lê deve estar muito doente. Amanhã mesmo ele volta. (p. 38)

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Tentei


Poeminha escrito na adolescência... (Outubro de 1996)

Hoje cheguei à conclusão
Que as tuas recusas
Me fizeram mais
Forte, pois tanto persisti
Que bom que essa força
Hoje me faz insistir..

Poética


O poema é o samba
Das páginas
Quando ele chega sacode,
Balança e encanta. E enche
De rubor os rostos pálidos
Das folhas brancas.
O poema é um chopp
[numa tarde de sol]
O poema é samba
De Chico cantado por Nana
O samba é o poema das passarelas
O poema como o samba
Não morre
Jamais.

Dia dê


Descontrole, desejo, depenada
Desfeito, defeito, desmontada
Destroço, disposto, desmaiada
Desse...
Daquele
Desejo,
Despejo,
Dedo.
Demora, agora.
Deitada.
Deixa.
Deitado.
Demora, agora.

crônica ( ou a última estação )


quantos de nós vivem a euforia da vida?
essa coisa desacertada e desconexa
esse não sei o quê que faz a gente pulsar
esse trem que abre serras sem ter trilho

sentado numa cadeira o meu pai vê a tv
que sem a sua atenção diz o mundo em instantes
e desdiz sem que ele note a primeira informação
a vida é uma embalagem de biscoito
com a validade mais curta que a fome

uma velha senta no terraço da casa sem filhos
sem filhos a velha casa
a velha e a casa
sem trilhos
trem que passa e passa
e passa e passa

esdrúxula máquina desordenada com um som de metal
que quebra e bate e bate e quebra
o trem
trem
rem
em
m

o tempo quebrou a máquina de datilografia
modificou o espelho
comeu a minha família e cuspiu um mundo de coisas
cuspidas

a poesia de meus dias foi comida pelo trem
na sua trilha dos destrilhos
a vida bate nos dormentes de meu peito dormente
e ainda é uma furtiva imagem nos olhos de
meu pai velho

a tv se desliga quando o tempo gasta a luz que a incendeia
mas meu pai não viu
o tempo já tinha desligado seus olhos
com o sono mais doce que esse mundo amargo
consegue consumir

o tempo o trem a vida
a vida o trem o tempo
o trem a vida o tempo
está tudo consumido
consumado

domingo, 3 de maio de 2009

A não ser um

Um dia que tudo foi mal
Um dia que tudo se foi
Um medo de não mais poder
O dia da vida se erguer
O Nada de antes de tudo
A coisa depois de você
A falta não mais se ter
A coisa
O nada
O ser

sexta-feira, 1 de maio de 2009

GALO - O Rei da Borborema

Era uma vez uma linda Campina cheia de nada por onde passavam os Tropeiros da Borborema, em destino dos confins do sertão. Por lá foi se formando uma vila, que depois virou cidade, que depois virou nação. Sim, uma nação que tem vida própria, grande, altiva, nobre, valente, rica e como toda grande nação que se preze tem também as suas histórias de lutas e combates pela sua independência... mas o povo que se fixava nessa terra gigantesca, que chamaram Campina Grande, no coração da Serra da Borborema, era um povo muito ordeiro e pacífico. Alguns que não sabem da grandeza desse lugar encantado escolheram uma cidadelazinha, vila de pescadores, como a capital oficial da Parahyba, como se chama a região onde a linda Campina está localizada. Por causa dessa escolha a terra da Campina foi ficando sempre muito grande e invejada pelos que só tem o titulo de capital.
E o tempo foi passando e de repente surge no meio de tudo e para a alegria de todos um clube desportivo onde a juventude se entretinha nos lazeres e jogos pueris... mas não foi tão simples assim. Com um tempo a nação foi ganhando força e o seu clube foi ganhando um nome. Deram-lhe o nome de Treze Futebol Clube, mas ficou muito conhecido por Galo da Borborema, visto ser ele o único a cantar de galo na campina que vivia. Neste mesmo período já tinha uma outra representação clubística que o povo, desdenhosamente, chamou de Cachorra da Zona Leste, hoje Preá de Pedregal. O Galo foi se tornando mais forte e mais forte e a cachorra tentava mordê-lo e ele não deixa e a luta era grande... como foi estranho a nação ver uma cachorra apanhando pra um Galo! Isto repercutiu mundo afora. O Galo da Borborema rompeu com todos os limites e se enobreceu cada vez mais. Até que o vilarejo (capital) quis combater esse poder indestrutível do TREZE de Campina Grande, nome Oficial do Galo, lançou um adversário, pequeno e frouxo, que para assombrar o Galo chamaram de Botafogo. O fogo já nasceu morto e o galo não tinha inimigos à sua altura.
Pouco tempo depois, os combates foram se intensificando e vinham Cachorras, Fogos, Dinossauros, Gaviões... e nada. Como não havia, mas, nada para se fazer todos numa linda tarde de domingo juntos em mais um dos triunfos do grande Galo da Borborema resolveram render, baixar suas almas, e condecorar o TREZE de Campina Grande, como O REI DA BORBOREMA. E neste momento todos aclamaram em voz alta e em uníssono: Galo da Borborema, tua história tem valor / o teu passado é todo de glória / E o cinqüentenário ele já completou / Tem a torcida maior do Estado / Sempre ao seu lado / Nunca lhe abandonou / Para comprovar tudo isso que falo / Veja os troféus que ele já conquistou / Galo, Galo, Galo, és um lutador / Nas suas conquistas / Raça nunca te faltou.
E assim nasceu O Rei da Borborema, o mais amado, o único, o mais querido. A nação disse Amém.

Adeilson Sousa, trezeano desde a morfogênese infante!


http://www.trezefc.com.br/forum/viewtopic.php?f=6&t=1462&sid=bd989355180228f8c153fcc51cb4eb0f

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Tango

Escrevi a letra de um tango
Tenso como a corda de um mastro
Interno como a voz de Gardel
Profundo como a noite daquele cabaré de Buenos Aires
O meu tango não tem dança
Só tem alma
E o som do salto dela que dói
Nos meus ossos sem carne.
A letra do meu tango tem
Silêncio e gim, e
Noite que bate dentro de mim.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Tempo-tempo

Eu não tenho uma data de nascimento
Tenho o próprio tempo
Laçado no meu jardim
Mostro ao tempo como é que a vida cresce
Num quintal que ele não conhece
O tempo come capim por sete anos
e vê que a sua arrogância não tem sentido
eu solto o tempo e mostro pra ele
que as minha rugas são resultado
de minhas observações
A poesia de minha vida
não tem idade, nem tempo, nem biografia
tem rugas
Que nada mais são que as minhas
Experiências marcadas e moldadas
O tempo sai em seu galope de besta
E desiste de mim
Eu ando pelo mundo como se tudo
Ainda estivesse por ser criado
Mas Deus ainda não começou
A sua obra de criação
O tempo ainda é só um plano
Que Deus tem para os que não sabem
Ser e Estar

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Dialeto Paraibano

Paraibano não se diverte..., ele 'bota pa decê'!
Não é distraido..., é 'apombaiado ou alesado'!
Não fica solteiro..., ele fica solto na buraqueira!
Paraibano não vai com sede ao pote...,ele vai com a 'bixiga taboca'!
Não vai embora..., ele vai pegá o beco!
Não diz 'concordo com vc' ..., ele diz 'Né isso, omi!!!!'
Não se admira....ele diz 'oxe, massa!'
Não fica com raiva...... fica 'Cá gota'
Paraibano não conserta..., ele imenda ou endereita!
Não bate..., ele 'senta-le'a mãozada no pé do uvido!
Não sai pra confusão..., ele sai pro 'muído'!
Não fica impressionado....fica abestalhado
Não tem dor de ouvido...tem dor nas oiça
Paraibano não bebe um drink..., ele toma uma!
Não vira de ponta-cabeça ...... vira de bunda canastica
Não dá pulo...... dá pinote
Não joga fora..., ele avôa no mato!
Não discute..., ele moe!
Paraibano não é sortudo..., ele é cagado!
Não corre..., ele dá uma carrera!
Não ri..., ele da uma gaitada!
Paraibano não zomba..., ele manga!
Não compra cachaça..., ele compra 'o lítu'!
Não toma água com açúcar..., ele toma garapa!
Paraibano não exagera..., ele alopra!
Não engana..., ele dá um migué!
Não percebe..., ele dá fé.
Não fala – ta ok? .....fala ...visse?
Paraibano não vigia as coisas..., ele pastora!
Não sai apressado..., ele sai desembestado!
Não aperta..., ele arroxa!
Paraibano não usa zíper..., usa 'riri'!
Não dá volta..., ele arrudêia!
Não 'vai se encontrar com alguém'..., ele 'vai puntá alguém'
Paraibano não espera um minuto..., ele espera um pedaço!
Não é distraído..., ele é avoado ou aluado!
Paraibano não fica encabulado... ele fica todo errado ou todo por fora!
Não passa a roupa... ele engoma a roupa!
Não ouve barulho... ele ouve zuada!
Paraibano não acompanha casal de namorados... ele segura vela ou vende cocada!
Não rega as plantas... ele 'agoa' as plantas
Não é esperto... ele é desenrolado!
Não é rico... ele é estribado!
Paraibano não tem dor de estômago....... tem nós nas tripa
Ele Não é desligado ...... é leso
Não fica preocupado .... fica aperreado
Não fica tenso ..."fica aguniado"
Paraibano não passa mal...... tem agunia
Ele não vai colocar alguma coisa em algum lugar ....... ele vai "butar"
Ele não acha uma coisa legal demais ..... ele acha arretado
Não faz palhaçada ... ele faz prezepada
Paraibano não é homem... ele é macho !
Ô orgulho réi besta!!! OXE !!!!!
Filho de paraibano não é mal educado... é impussive...
Mulher de paraibano não é bonita... é um filé!
Ela também não é gostosa... é uma bicha boooa!
Casa de paraibano não fica bagunçada... fica dirmantelada...
Paraibano não tem colega... Tem pariceiros...
Paraibano não vai para festas... Vais pros cantos
Paraibano não tem roupas novas, tem roupa de ir pros cantos...
Paraibano não se desequilibra... leva um trupicão!
Paraibano não lava a louça... lava os troço!
Paraibano no fim da fila não é o último, é o derradeiro...
Cabelo de paraibano não é cacheado... é incriquiado...
Paraibano não fica farto... Fica impaxado...
Paraibano não se irrita... Pega ar ou se incabula logo...
Paraibano não tem sanitário... tem aparêi...
Paraibano não anda junto... Anda incangado...
Paraibano não toma banho no chuveiro, toma banho de chuvisco...
Paraibano não fica desarrumado... Fica malamanhado...
Paraibano não compra bombom... Compra confeito
Paraibano não é enganado... É ingolobado...
Paraibano não faz ginástica... Faz física...
Paraibano não tem par... Tem pareia...
Paraibano não fica arrumado... Fica alinhado
Paraibano não tem dor nas costas... Tem dor nos pinhaço!
Eita... Se eu continuar não paro... Vou fazer um dicionário...

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Re-Verso

Amo a sua presença escrita
Escritura de tatuagem
Me crava palavras na alma
Me enche de desejo
E me faz poema sem
Rima
Verso
Estrofe
Me faz ser
Livro, aberto
Esperando os teus olhos
Para me devorar.

Poema veloz

Quando o sono bate...
Você cai.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Soneto de José Maria du Bocage

Lá quando em mim perder a humanidade
Mais um daqueles, que não fazem falta,
Verbi gratia – o teólogo, o peralta,
Algum duque, ou marquês, ou conde, ou frade:

Não quero funeral comunidade,
Que engrole sub venites em voz alta;
Pingados gatarrões, gente da malta,
Eu também vos dispenso a caridade:

Mas quando ferrugenta enxada idosa
Sepulcro me cavar em ermo outeiro,
Lavre-me este epitáfio mão piedosa:

“Aqui dorme Bocage, o putanheiro:
passou vida folgada, e milagrosa;
comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro.”

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Um poema para ela II

Na singeleza de um olhar
Que sopra como brisa de inverno
e me arrepia,
E esquenta qual sol de verão,
e me arde,
A rosa abre, em vermelhos
Cor de corpo, de boca
de alma e cor de sal
Suor de amor e sobras
Sobras e cores.
Cores e formas.
Intensa rosa aberta e muda
Que me devora com seu sabor
Que me arrebata em seu calor
E me desnuda,
E me De-'v'o-ra

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Considerações sobre Música e música

Não sou dos mais saudosistas que dizem só é bom o que ja passou... Antes de mais nada quero falar de como é boa a presença de artistas modernos e modernizantes como Lenine, Zeca Baleiro, Paulinho Moska, Otto, Cabruêra, Cordel do Fogo Encantado, Siba e a Fuloresta, Los Hermanos, Bruna Caran, Ana Cañas, os internacionais Coldplay, Pearl Jam, Damien Rice, Carla Bruni, Oasis e tantos outros que são ouvidos e aclamados com muita propriedade pelo público mais antenado no que rola com boa qualidade regional, alternativo ou internacional ( sem maiores classificações pra nao entrar na cansativa discussão dos rótulos). Todavia, estes são apenas alguns nomes no universo de musicalidade despreovido de qualquer compromisso estético, político, pragmático ou até mesmo ritmico, isso mesmo: rítmico. Não é possivel que as bandas de rock na posição de cantores de um ritmo que defende a mais frouxa liberdade intelectual e propostas de identidades bem definidas, não caiam um dia na real e vejam que o que estão fazendo nao é mais que um repetição furtuita e malograda uns dos outros, sem a mínima conceituação estética-ritmica... as mesmas batidas, os mesmos cabelos, as mesmas camisetas, o mesmo jeans, as mesmaus gitarras, as mesmas gravadoras e o pior... o mesmo nada de proposta intelectual ou artistica. Como é cansativo ouvir a FM tocar essas musicasinhas que não dizem nada a não ser gritos de muleques mijões que não sabem bem o que sentem se estão amando ou somente ligados em suas ficantes, mas que estão a beira da morte de "tanto sentimento". NX Zero, meu Deus, o que esses menininhos filhos de papai estão fazendo no cenário da musica nacional senão cumprindo uma tabela de compromissos apenas midiáticos arranjados pelos seus 'paitrocinadores' em canais de TV que ainda acreditam que as pessoas ficam sentadas na frente da tela no domigo pra ouvir qualquer porcaria que eles queiram reproduzir! No cenário da música brasileira não tem mais lugar para boas canções cantadas por bons interpretes, mas estes espaços estão reservados para a mais degradante porcaria musical que reproduz o nome de "pop-rock, rock-universitário", "beach-rock", e outras coisas cantadas pelos Felipes Dilon da nova música...
Outra coisa que me chama a atençao são os ritmos regionais brasileiros e as suas apropriações. Vejamos o que se tem feito no sudeste do país como "forró universitário", funk-pornô, kuduro, MCs e DJs que disvirtuam as propostas ritmicas das danceterias e boates mais mais divertidas, por uma música que jamis vc ouvirá igual porque a que terminou de tocar foi feita por um cara cheio de êxtase que muitas vezes não saberá repetir os mesmos arranjos. No nordeste as coisas parecem piores que no restante do país. Na Bahia, por exemplo, ouve-se o arrocha, bregaché, quebradeira, sambaché, axégode, aché-music não tem mais a sua cara e beleza de quando o termos "axé" valia como um discurso de valorização racial, de empenho pela cultura afro que precisava tanto aparecer e ser difundida para o resto dos país e do continente. Nas variações do forró temos as bandinhas do interior da Paraíba e do Ceará que vêm cantando uma coisa que intitulam de forró mas que não tem nada que ver com os ritmos do arrastapé, xote, xaxado, baião, gafieira, coco de embolada ou outras raizes ritmicas facilmente identificadas com o povo e a cultura do nordestino. Onde já se viu uma discrepância estética tão grande: cantores de "forro-eletrônico" cantando com roupa de roqueiro grunge à moda estadunidense!!!, com cinco ou seis mulheres quase nuas que interpretam peças musicais que ritmo e letras eróticos e não se vê em seus passos nenhuma referência aos passos do Forró nordestino.
É preciso ver com outros olhos os que dizem que isso é uma perda e ouvir com outros ouvidos os que dizem que isso não é bom! Mais atrasados do que os que criticam essas 'inovações' são os que se consideram tão "modernos" que cegam para realidades tão evidentes e prejuizos tão aparentes!
Agora sim... podem me chamar de antiquado, atrasado ou cafona, mas saibam que música de qualidade não passa, não cansa, não desgasta! Uma coisa me consola: modismos e produtos puramente midiáticos têm data de validade curta! Então, adeus aos que aí estão fazendo suas porcarias ouditivas... Salve a música feita por verdadeiros músicos!!!

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Capitólio, São José e Amigão!

Campina Grande já teve nos anos 80 o apelido de a Londres do Norddeste. Mas, as coisas em nossa Rainha não têm muita explicação... Pensemos:

A restauração da Maciel Pinheiro foi uma piada de mal gosto e cara! Não se respeita layout da paisagem restaurada, as calçadas estão esburacadas e é muito mais seguro andar pelo asfalto junto dos carros que são (des)controlados pelos agentes (antipaticíssimos) da STTP. A prefeitura faz vistas grossas às placas recolocadas pelos logistas fechando as fachadas do maoir aglomerado de Art'Decor das Américas.

O Cine Capitólio: Um símbolo da cidade que marcou gerações é fechado e utilizado pela prefeitura como uma espécie de 'almoxarifado' de material de construção, o que é um desperdicio de dinheiro e uma burrice cultural histórica. Localizado no miolo da cidade e de frente à praça mais movimentada da Rainha da Borborema e a poucos metros do Teatro Municipal Severino Cabral. Se for falta de capacidade administrativa providencie-se que a iniciativa privada administre e faça com que o prédio volte a ser o Cine Capitólio.

Enquanto isso Campina continua sem um Cinema no centro da cidade...

O Cine São José: Restaurado para ser um... quem sabe!? Após a reforma de alguns anos e alguns milhares de Reais atrás o Cine São José voltou a ser abrigo de mentigos, o fez do nosso famoso Cineminha uma das nossas grandes frustrações.

Enquanto isso Campina continua sem um Cinema no centro da cidade...

O Amigão: com mais de 30 anos de construção o velho Ernani Sátiro virou uma sátira... não é possível que deixem um monumento arquitetônico e histórico de nossa Campina aos frangalhos, com infiltrações que devem estar gerando peixes, a superficie de cimento que já descascou quase por completa, os banheiros que são preferíveis não usá-los, túnes de atletas que parecem mais sarcófagos egipcios...

A nossa Grande Campina precisa de socorro... Ou será que temos de frequentar cinema de Shopping Center para sempre? ou mesmo precisaremos ver Galo e Raposa na Ilha do Retiro?

Adeus Ginásio César Ribeiro...

Adeus Estádio PLinio Lemos...

Adeus às quadras de bairros e campos de peladas...

Minha linda Campina às vezes me cansa! Só Deus!

Sem assunto pra escrever

O meu desejo de escrever me consome a alma, às vezes acho que o texto é quem me escreve pois eu não sinto dono de meu texto; isso me faz lembrar uma certa entrevista que Clarice Lispector deu em 1977, meses antes de sua morte "eu so me prendo a meu texto até a sua publicação, depois não gosto mais dele, nem mesmo o leio". Não tenho desprendimento tal, porém, tenho um apego que me consome, por isso não sei bem quem é o dono de quem, talvez pela dolorosa consciência de o que fora publicado não mais me pertencerá. Ainda me desprenderei de meus textos, acho que isso acontecerá quando finalmente aprender a escrevê-los. Os resgados e lançados fora jamais devem ser tomados de volta, pois não nos pertencem mais, e de fato não tem mais a sua graça de ser... as palavras que escrevemos são como nuvens que se vêem belas mas que não são possíveis de serem mostradas a outra pessoa mesmo que esteja do nosso lado, pois, elas mudam de forma a todo instante e a nuvem não será mais a nuvem que você viu. Os melhores textos estão ainda por serem escritos, ou para os mais pessimistas, já foram escritos e lançados fora, afinal o melhor é sempre o que não temos.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

XXI d.C.

“Et vous connaîtrez la vérité, et la vérité vous libérera”

Entrar por esta porta não é verdade
Sair desse mundo não é verdade
Entrar sem sair é verdade, assim
Como não Ser também É.

Resistir não é verdade
Aceitar tudo não seria verdade
Se não fosse verdade a mentira do hoje
E a incerteza do depois de amanhã

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Cidade de Deus e o exemplo de como fazer cinema!

CIDADE DE DEUS – EM FILME
Em um “longa” Fernando Meirelles fotografa a banalização da morte nas favelas cariocas com crueza e beleza. Partindo da década de 60


Jogando futebol com os meninos do bairro Bené (Phellipe Haagensen) e Dadinho (Douglas Silva) vão construindo uma sólida amizade. Os dois e seus colegas, todos moradores do bairro “Cidade de Deus” crescem na rua e logo se deparam com o volumoso aumento da criminalidade, conseqüência direta do descaso das autoridades governamentais para com o crescimento desordenado da cidade do Rio de Janeiro. Não aceitando como alternativa as poucas formas de subempregos que os familiares e outros poucos da comunidade tinham estes jovens agarram, como o mais legítimo meio de “crescimento”, a criminalidade: começando por assaltos, depois como agentes do tráfico de drogas, por fim líderes de bocas de fumo. Este último emprego confere-lhes autoridade, poder e fama legitimizados pela comunidade que recebia em troca do apoio, “proteção”, e emprego já que a forma mais rápida de conseguir dinheiro era trabalhando para o tráfico.
Toda essa trama é narrada por um menino, Buscapé, personagem do jovem e habilidoso Alexandre Rodrigues, que por pouco não se torna mais um do enorme grupo de jovens delinqüentes daquele complexo de favelas que “de Deus” não tem nada.
Mesmo sendo uma produção barata para níveis hollyoodianos o filme conseguiu um feito inimaginável: trazer ao público a realidade dos subúrbios dos grandes centros com um alto grau de verossimilhança, feito ainda não alcançado em outras películas da cinematografia brasileira. Este brilho não foi simples fruto do acaso, como o próprio responsável, Fernando Meirelles, disse em entrevista à Rede Globo que não tinha pretensões tão grandes, como por exemplo ser cotado para o Oscar de melhor filme, mas sim por ter sido burilado da forma original e inovadora com que a equipe de produção o fez.
Produzir cinema no Brasil já não é tão fácil ainda mais quando se desenvolve um projeto com amadores que só descobrem o que é cinema quando já é parte dele, visto terem passado por um curso razoavelmente breve (oito meses) sob a direção de Guti Fraga. A imensa maioria dos atores que protagonizaram é oriunda da própria comunidade favelada retratada na obra.
É clara a qualidade da montagem coordenada sob os olhares sagazes de Daniel Rezende e dos efeitos significativos do experiente Renato Batata, contudo, mesmo sendo tão bons não são comparáveis às produções do mesmo estilo tais como TRAFFIC protagonizado perfeitamente por Benício Del Toro ou até mesmo do pobre, conteudisticamente falando, GUNGS DE NOVA YORK que lava as ruas da periferia de sangue numa quase total desumanização só interrompida por um dos tradicionais romances que entremeiam as narrativas cinematográficas norte-americanas. Mesmo não sendo o melhor, nos aspectos acima citados, CIDADE DE DEUS ainda é bem melhor filme que o segundo. O filme de Meirelles não romantiza as relações afetivas entre os personagens bandidos como acontece com os perigosos detentos de CARANDIRU, que é dada mais ênfase ao lado do “bom selvagem” de J.J. Russeaut, que, propriamente, ao lado criminoso pelo qual eles estão sendo punidos e mantidos apartados do convívio em sociedade, ao contrário, o diretor tenazmente deixa evidente que os vínculos afetivos são abalados quando o assunto é ponto de comercialização de entorpecente, armas e poder. Não há nenhum romance desenvolvido e evidenciado do início ao fim do filme. Tampouco líder que herde poder ou que quando o tenha não perca ou seja assassinado. Vale salientar que o diretor disse que o que vimos era apenas o “jardim de infância do tráfico” do Rio de Janeiro. Há de se convir que as cenas pintadas no cenário carioca dos últimos anos não deixa a desejar a lugares como Sarajevo ou Beirute.
Enfim, o Brasil tem um filme que com beleza artística incontestável, com justificado uso de uma linguagem chula, com belíssimas cenas de exterior, coisa que sempre fomos pobres, ainda, que fugiu do apelo para cenas de sexo deslocadas como estamos acostumados ver na maioria de nossas películas. CIDADE DE DEUS foi importante para a arte nacional por dois motivos: primeiro pelos prêmios que recebeu e segundo por ter-nos premiado com um jeito novo de fazer CINEMA.
Talvez o cinama do Brasil tenha surgido aí. O que se fez antes é mera tentativa.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Um poema para ela

Ela é de poucas palavras
ela não me fala muito
mas me fala o mínimo
me diz com o máximo
olhar
a mínima palavra
desejo
o superior concentramento
dos lábios que gesticulam
dos olhos tesos e claros
claridade sem evidências
deleito na ansiedade
fervo em seu acanhamento
no seu olho penetro
retina
destina minha alma
d'Ela.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

(uma lembraça de Wally Salomão, esse marginal que o mundo odiou, amou)

Nova Cozinha Poética

Pegue uma fatia de Theodor Adorno
Adicione uma posta de Paul Celan
Limpe antes os laivos de forno crematório
Até torná-la magra-enigmática
Cozinhe em banho-maria
Fogo bem baixo
E depois leve ao Departamento de Letras
Para o douto Professor dourar.

domingo, 21 de setembro de 2008

Anuário

As noites fevereiras
São mais dezembrais
Que as noites
De dezembro
As noites de janeiro
São mais quentes
Que as geladas noites
Juninas

As noites de junho
São mais frias que as frias
Noites fevereiras
De dezembro

Os meses são as mulheres
Coloridas setembrais
Cinzentas como maio
Quentes como março
Frias como julho
Santas como abril
Profanas como fevereiro
Molhadas como agosto
Secas como novembro
Amenas como outubro
Gostosas como junho
Brilhantes como janeiro
Finais como dezembro.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Poemas Inconjuntos (Alberto Caeiro)


Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.
Falas de civilização, e de não dever ser,
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as cousas humanas postas desta maneira.
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seria melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as cousas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as cousas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!
Entre o que vejo de um campo e o que vejo de outro campo
Passa um momento uma figura de homem.
Os seus passos vão com «ele» na mesma realidade,
Mas eu reparo para ele e para eles, e são duas cousas:
O «homem» vai andando com as suas ideias, falso e estrangeiro,
E os passos vão com o sistema antigo que faz pernas andar,
Olho-o de longe sem opinião nenhuma.
Que perfeito que é nele o que ele é – o seu corpo,
A sua verdadeira realidade que não tem desejos nem esperanças,
Mas músculos e a maneira certa e impessoal de os usar.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Olhar sobre Campina


Era como se um tiranossauro
Passasse
Na Maciel Pinheiro
Como se fossem carros
Que passam
Esmagando pequeninos homenzinhos
Azuis
Que sopram apitos estridentes
Que não servem para nada
Tu és assim
Afobada como a grandeza
Fingida de Campina
Pequenina grande Campina!
De jurássicos homens
A desfilar
Como se um dinossauro
Passasse.

sábado, 6 de setembro de 2008

Poema sóbrio



Dentro de mim ondas revoltas
Esbarram e me maltratam
O sangue que gira em mim
Me gela e me cresta e me engasta
Como um susto súbito
Recado de morte
Que a todo instante
Sopra no meu ouvido.
Talvez eu só tenha essa vida
Talvez eu tenha outras mil
Talvez eu tenha o paraíso
Essa vida eu perdera talvez
Que são os pardais senão
A realização plena da vida
Que saiu de mim como uma tosse
Seca?

E os dias amanhecem
E se faz dia sem aurora,
Como outrora
Os pássaros cantam suas canções
Como de costume, rotina.
Viver é como uma vodca
Quando não se está com vontade
De beber
E todos ao redor bebem
Sorridentes
Enquanto a náusea lhe bebe.

Dois homens sorriem num bar
Como se o viver latejasse
Dentro deles.
Ondas de vida se avolumam
E se quebram nas rochas
Postas após as vodcas.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Tic-tac-tic (ao meu avô)

Eu não queria voltar o tempo
E refazer meu nascimento
Eu não queria voltar o tempo
Pra dar vida a amigos mortos
Eu não queria voltar o tempo
Pra sentir o cafuné de minha avó
Eu não queria voltar o tempo
Pra dar saúde aos meus pais
Eu não queria voltar o tempo
Pra novamente fazer dezoito anos
Eu não queria voltar o tempo
Pra contemplar o riso das Camélias
Eu não queria voltar o tempo
Para estes momentos.
Para estes momentos
Eu queria parar o
tem
po.

20/12/03

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Retrato I

Retrato I
É muito difícil passar das linhas do dia
Meu dia é cinza
Da cor do fogo morto
Ó que linda essa paisagem
No quadro da parede esquecida!
Minha mãe diria que no Éden era assim
Eu também acho que era
Mas o casal não quis estar lá por muito tempo
Só até descobrirem que a beleza esta relacionada á perfeição
Ó Deus que mundo feio...
Ajuda-me a entender como seria o Éden
A minha mãe tem mania de inferioridade
O paraíso que ela me apresentou
Tem cores apagadas e cinzentas como um retrato do Iraque
Iraque...
O meu livro de história fala que o Iraque é onde era a Babilônia
E que a Babilônia era onde era o Éden
Pois é... as coisas são como são
Céu e inferno têm a distância dos dois ponteiros
Do meu relógio

Retrato II


O quintal era daqueles das tias velhas
Cheio de pés de cana que cheiravam doces
um verde bandeirou na minha infância até os dias de hoje
a cadeira do meu avô nunca saiu dali de perto da caqueira
que ficava perto do cercado das canas-de-açúcar
O velho nunca deu trégua às nossas travessuras de meninos sempre bem comportados
- sai daí seu cabra!!!
Galinhas quando viam raposa
Como eram doces as canas permitidas sem
Gritos
mais doces todavia
foram as que lentamente minha avó cortava
descascava partia arrancava talos
Como era bom esbagaçar
O mel no dente
Sentado no pé-da-parede no oitão da casa-velha
Hoje eu pinto um quadro com as tintas do que ficou
No quintal de meus dias.

Retrato III

Era perto do Natal
Clima de festa e uma certa dose de expectativa
Enchia os dias de um lirismo feliz
Da cor laranja que faz a barra na Serra da Borborema
Pintar a casa
Roupa nova
Passar de ano
Ver o tio que vem de longe
Encontro em casa com todos juntos e comer alguma coisa na
[casa da tia mais prestimosa e meiga do mundo
Compradas as tintas e feitos os primeiros preparativos
Minha mãe não permitia um vacilo sequer
A barra devia estar perfeita
- não suja os móveis...
- não deixa cair tinta no chão Antônio!
Sob uma chuva de recomendações pintava o meu pai a casa tão pequena e nossa como era a casa do João de Barro
Meu pai sem palavras e muitos suores e rubores
Ele é daqueles homens de cor de camarão
Cor irritada que não condiz com seu modo de estar no mundo
Eu queria sempre dar uma ajuda
Esta sempre era para o que meu pai mais gostava:
Uma pergunta por minuto
Ele intrépido sempre a me responder e gracejar com versos já tão ouvidos
(que eu nunca decorei só pra poder pedi-los novamente)
Meu pai era delicado como a barra cobrada por minha mãe
E mais fino que o esperançoso garrafão de vidro antigo que ficava na mesa da sala
Nunca peguei num pincel mas aprendi o segredo das cores que faziam
a minha infância mais tênue
Eu fiz a ultima pergunta antes de eu crescer:
Por que o senhor pinta melhor que os outros?
“Eu não pinto melhor que ninguém...
É que eu vejo a poesia das coisas!”
Foi assim que a minha infância ganhou molduras.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Flor da noite

O sol entrava como um ladrão
pela janela.
Um sol de tom azul prateado
que
molhava meu corpo com esmero e doçura.
Eu não sei se é frio ou é apenas sono, mas, sei que sinto.

O que sinto eu não sei bem.
Os meus cabelos me encobrem parcialmente meu rosto que não quero mostrar.
Minha cara é minha alma por isso evito o Espelho.
O que quero não se traduz, não se compõe.
O que sou é vasto.
Sou profunda e o espelho é raso como a superfície
das águas.

O meu olhar está inclinado
porque eu nego esse horizonte que não foi eu que escolhi.

Eu me desmonto e me desfaço.
Eu estou chovendo
em laivos de prata que caem
gota
a
gota

do meu olhar.

Adeilson Xavier

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Inverno

Não é o frio que me incomoda
nem a ausência de um cobertor
nem a falta que me divide
nem a casa de janelas abertas
nem a cama que esfria
ou a janela que não fecha

O que me incomoda no inverno
a essa ausência das coisas mais quentes
das coisas que são tidas com os amigos
das que são conseguidas com um abraço
das que não temos mais na casa dos avós
das que não conseguimos mais cheirar
com o cheiro próprio das casas velhas
dos sítios antigos e distantes
das rodas de parentes ao conversar coisas
não importa que coisas sejam

O inverno devia deixar as nossas vidas em paz
e esquentar porque frio não tem mais graça
porque as casas estão ermeticamente lacradas
com portões e janelas e cercas intranspuníveis
e os amigos casaram e estão tão distantes...
as calçadas não têm mais marcas de cirandas
já não se riscam sóis em carvão ou giz
pela penitências de uma claridade quente

o inverno está morto e sem graça e frio
não o frio que é frio no inverno
é um frio mais frio que o frio...

quarta-feira, 18 de junho de 2008

antes das seis


... ela tem medo da hora de anoitecer, entre cinco e seis da tarde, depende do período do ano, entende? as coisas vão tomando um ar sombrio e enche de agonia a pessoa, às vezes ela diz coisas assim sem se importar com a ordem lógica gramatical, às vezes ela é uma jornalista contista psicóloga poeta sei lá mas tem vezes que é muito adulta mulher de voz guria e cara mansa de menina mimada, gata de casa de muita gente, mole como uma boneca de pano daquelas da feira com muito roje e batom mas que não tem força de ficar de pé como a Suzi, quero sumir hoje de tarde não sei pra onde mas ou vou fugir de mim, carregando ela dentro dela ou deixando numa rua qualquer sem esquinas, ela parece não querer sair daquele portão branco que a mãe dela tanto cuida que não fique aberto, ou queira talvez e eu ainda não saiba, o olho dela é escuro e doe, não me lembro de nada, tem uma memória muito seletiva conversando com ela vai ver que lhe fala de coisas interessantes e que não ficaram na mente dela para depois rememorar, uma tarde ela me chamou para assistir o pôr-do-sol de domingo junto com ela e eu não podia pois eu tinha um compromisso com amigos agendado há tempo, deveria ser bonito vê-la dizer que tem medo daquilo que estava na sua frente – quem sabe me abraçasse – e venceríamos a tarde montados na noite como São Jorge venceu o dragão montado num cavalo, da próxima vez quem vai fazer o convite sou eu, sentar numa pedra e contemplar a paisagem cheia de verde cor de hortelã e azul cor de mar, bom mesmo seria ver a tarde se indo empurrada pelo negrume noturno que vem para nos mostrar a beleza das estrelinhas que habitam o teto do mundo piscando como os olhos dela, uma chuva luminosa de cristal é o olho dela no riso-choro presente sempre, tenho certeza de que se ela visse um camelo de perto ela diria que ele é lindo e triste, é assim que ela vê as coisas sempre de dois lados dentro-e-fora, há dias que se distrai com uma música e no outro com a mesma chora, quando escuta a música por fora se diverte e quando escuta a música por dentro chora, acho que ela não pode escutar fados porque ela é muito lírica seria uma portuguesa se não fosse de onde ela é, acho que o oficio dela era para ser professora já que tem muita sensibilidade infantil, deveria ser uma daquelas a fazer do magistério um mãegistério, mas ela tem medo demais das coisas, as coisas têm um lado misterioso já que tem sempre o lado de dentro para ela, dentro do dia dentro da noite dentro da pedra dentro da água dentro do sol dentro da lua dentro de tudo tem algo mesmo que nada eu seja capaz de ver mas há quando ela olha, queria que você fizesse parte do meu feriado, eu não poderia dizer não afinal eu sempre quis isso, mergulhar nela como num mar vítreo cristalino e me banhar de alegria e doçura de seus pensamentos tão simples e penetrantes e tão densos, eu sou dela agora como uma corrente tem um pingente ela me tem e eu a tenho mas não tenho a exata precisão de sua força em mim pois diferente dela eu sou raso como um espelho,

domingo, 15 de junho de 2008

Agosto I


Era noite e esfriava

Banhadas de lua e acinzentadas

As calçadas do centro da cidade

Choravam as agruras de um dia sujo

Transeuntes que cuspiam suas almas

Tísicas e cheias de fuligem

Dos escapes, cannabis,

Um velho que dorme inerte

Com as marquises apagadas em flagelo

Trapos deitados ao vento penetrante

Das noites de agosto

Desgosto dos miseráveis inefáveis

Que se cobrem com o mais gradeado

Dos lençóis da vida

Corpos verticais em petição de morte

Vagam ainda antes que a noite seu último suspiro

Da modernidade de São Paulo 1999


Meu pai me disse que no céu

Há muitas estrelas e que quando garoto

Contava-as, sem conseguir enumerá-las.

Ele até mesmo me disse que são brancas.

Mas...

Como são brancas

Se as poucas que contei

Baliam vermelhas?

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Primeiras letras!!

A primeira de minhas postagens é esta
as andanças serão muitas, e as palavras
mínimas
só assim posso eu ser excessivo
em significados
muitas de minhas palavras serão
contidas caladas amordaçadas
com o maior de todos os beijos
_ a minha possibilidade de não dizer
não de dizer é um prêmio
calar é uma dádiva
ouvir é minha unção
extrema
!

sinônimoS

De manhã é o avesso da noite

Assim como a morte é o revés da vida

E a terra é o revés da água

O pó é o pedaço da pedra

O homem é o pedaço do nada

O nada é a parte de tudo

O cheiro é um pedaço da fruta

A mata é o pedaço da árvore

A árvore é o todo da mata

O quintal é o pedaço do homem

O homem é o pedaço da fruta

A fruta é um pedaço da árvore

A pedra é o inteiro do pó

O revés é o contrário da ida

A vinda é o contrário da vida

A ida é o caminho da morte

A vida é o conjunto de tudo

tu-do-tu-do-tu-do-tu-do-tu