segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Fragmentos de um sonho

Ela, vermelha de fogo, ele, em fogo e vermelho!
O sol se ponha mais cedo.
Vibração. Inverno.
Sem chuva.
Frio.
Olhos-bocas, corpos-Chão!!!

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Semáforo

O semáforo  é o sinal
Que marca o tempo.

Na solidão da Rua Vazia
É Cronos inválido,

Desprovido de poder.

O semáforo sem mais foro
Desmente o tempo.

A menina que espera

(escrito em 2011)

O que hei de esperar na vida
Se o relógio passa como um foguete
Se a vida passa e deixa rastros ou rugas
O que devo esperar? e quanto?

Como ser eu mesma nesse mundo
Que nem me espera nascer
E já me cobra como adulta?

A vida é vasta em mim
E curta fora de mim
O tempo me diz pouco sobre ele mesmo
Mas me diz o bastante para que saiba
Que devo esperar... esperar...

Mas, espero com desejo
de que o tempo nao passe
Estou confusa e nao sei se devo
Esperar que o tempo mude, passe ou pare

Prefiro dormir em meu quarto cheio de mitos,
monstros (de pelúcia) e panos com meu cheiro
A vida é maior que a minha alma
Não sei esperar nada da vida
Não sei o que é vida

Eu apenas quero a vida
Pois a vida é o meu desejo!
E isso nunca vai passar.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

LIVRO

Livro de páginas soltas mal ponteadas
de impressão precária, folhetinesca
A narrativa que me conta os dias
Tem tom de fantasia mal amarrada
De novela dramalhuda sem graça.

A capa pênsil, desgastada, mofada
Marcas de mão no dorso, amarrotado
um cheiro ocre no corpo de palavras
nódoas de dedos nas pontas inferiores
traços rotos de grafite sublinhando.

O título se desfez antes da leitura
a página 78, não devia ter sido escrita
muito menos a linha 11, inócua e fria
o capítulo 07, de mentiras cheio
São as idiossincrasias do devir.


sábado, 24 de novembro de 2012

Saudade


A saudade é um rio
Que me inunda e me encharca
Me molha por dentro
Me seca por fora
Tua falta é a minha erosão

Quero ser terra em chuva fina
Encontro entre serras
Para te reter e não seres mais rio
Te quero poço profundo de mim! 

sábado, 10 de novembro de 2012

Prospecções II

Vai cair a temperatura
Na rua na sua na minha janela

O vapor da terra consome
O horizonte na minha janela

A tristeza já tem o seu nome
Escrevi com na minha janela

E notei escorrer pelo vidro
Uma lágrima assinando

- Foi ela

Prospecções

Tic
Banho. Roupa. Perfume.

Tac
Carro. Bar. Ela.

Tic
Do tempo ninguém passa impune.

Tac
Nem duma língua tagarela.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Regresso

As paisagens se mexem com os ventos
Se pintam de estações

                                       (Policromia)

As serras são moças deitadas de 
                       [peitos e bundas]
Quinas para o ar.

O vento bolina o corpopaisagem
Arrepiando dos pés à cabeça
A Terra,
                                       - Menina -

Até hoje ensina
Com o cheiro do corpo
O caminha da volta.

Dia do poeta

Ele pensou que era noite
                        Se fez noite
Ele imaginou que era dia
                        Se fez dia

Brincava de mexer no sol e na lua

Tinha mania de grandeza

Desde criança
A vizinha dizia:

- Esse menino!
- Esse menino,
Vai findar fazendo
                          Poesia

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

A máscara




Dois em vários
Eus estamos assim
Nós sentindo só

As imagens revelam
Uma doce parte
Perdida de nós

Numa profusão de mim
Me fotografo
Diante do espelho

E me revelo uma luz
Apenas.

A mente



Os rios correm, cavalos alados
De plumas brancas macias mágicas,
Infinitas andanças em mares
Vazios planos
Areia alva
Clara manhã de domingo tropical
Sensível linho de deuses vastos
Descolores
Incolores
Transparentemente inerte
Inverte
Em
Verso
e
t
n
e
m.

sábado, 14 de julho de 2012

Sarau Yázigi II

Eu escrevo porque sou forte
Se fraco eu não escreveria
Torcer palavras, rimar a vida
Se eu não escrevesse eu morreria!

Sarau Yázigi I

A poesia é um pedaço
da vida
Transformado em palavra.
A poesia tem cor, tom, luz
A alma da poesia é uma chama que arde
E a palavra malandra invade
Sem licença ou porta ou chave
Ela chega, nos mata, nos morde
E traduz

domingo, 17 de junho de 2012

Dante

Basta-me ser isso só
Inevitável pedaço de mim
Agora sou maior que tudo

Agora sou por todos os lados
Gigante de braços abertos
Revelo poder e brandura
Amor sem amargo ou amargura

Agosto


Era noite e esfriava
Banhadas de lua e acinzentadas
As calçadas do centro da cidade
Choravam as agruras de um dia sujo
Transeuntes que cuspiam suas almas
Tísicas e cheias de fuligem
Dos escapes, cannabis,
Um velho que dorme inerte
Com as marquises apagadas em flagelo
Trapos deitados ao vento penetrante
Das noites de agosto
Desgosto dos miseráveis inefáveis
Que se cobrem com o mais gradeado
Dos lençóis da vida
Corpos verticais em petição de morte
Vagam ainda antes que a noite seu último suspiro

Desviver (a meu pai)


Desviver
                                                                                                                                 Ao meu pai

Não é numa cadeira de balanço que ele espera, nem na cama apenas. Ele anda e come e dorme apenas, - vida tem um peso, como se um armário daqueles de colocar tralhas estivesse nas suas costas. As mãos e o corpo tremem como se a vida ansiasse sair pelas pontas dos dedos ou nas dobras das pernas. A doença dizia-lhe com palavras evidentes que tinha pressa. Não essa pressa que as pessoas têm quando se dedicam aos seus quefazeres, planos e desejos, não. A pressa que a vida tem é a pressa de sair dele, de fugir, largar-se do corpo que cambaleia e não tem mais dureza e a rigidez da juventude.
Deitado no sofá da sala deixa o raio de sol quente encher-lhe a cara vermelha de boca aberta e displicente. Queimaria se não saísse com a sutileza da chegada. A luz do sol não tem muito que ver com a escuridão que começa a se perfazer na mente que não pensa, nem reflete, nem projeta, só espera. Espera. Esperar não é a faculdade dos que adquiriram paciência... é também a dos que perderam a urgência. A sala às vezes parece que é grande demais nos seus menos de 10m². Dimensões imensas. A sala é cheia dos netos que a vida joga e os filhos que a vida fez. O velho sentado na sala como uma cadeira de uma sala que não se usa mais, uma televisão ligada e desligada à revelia de seus desejos, um cumprimentos que soa a normalidade mais abandonada dos seus. Que também esperam.
Enquanto os dias se passam numa mágica lentidão de eventos: um café, uma rotina matutina que não preenche mais as expectativas, uma passagem na rua ao lado para não ver mais ninguém de seu passado que se distancia sem rastros, a padaria da esquina que antes comportava o nome de mercearia e tinha a nódoa de um mínimo passado esvaído em imagens que não voltam, a visita a parentes que só ele conhece a fundo e de perto, a noticia que um irmão está a beira da morte não mais surpreende nem estagna ou entristece, é um recado puro e simples como “o pão mais novo só sai em dez minutos”.

Soberba


   Tua sobra me falta
Me invade de desejo
me supre de ausência
Quero a tua alma
Soberba e sobrante
de tudo que me preenche
Quero a tua alma a balançar
na caminhada e sentir
o teu calor a me sugar em teu mar
Morena da cor-do-sol, sal meu.
Mendigo
as tuas sobras, meu mal!

A queda


V a i  c a i r  a  l e...
t-r-a
P ê
D a  a l a v r a
               v     
                   r
                   r
                       a

            oscacoscacos

Gravura


calor e cheiro de viver
delicia e desejo de ser
um só em mim sendo
eu não sou esse (não)

eu tenho muito de mim escondido
no sem fim do eu internamente
subjacente à casca que me enlaça
e me esconde do outro de mim

eu sou um quadro na parede

Lavoisier


Sutil e vibrante cor de violeta rosa e carmim
Sinestesias e desprazeres calorosos
Medo
Demasiado desejo de explodir por dentro
Suspiros engolidos com pânico e lágrimas
Doces
Apuros e mortes internas infernais
De que sou feito?
Lama ou chama?
Flor ou folha?
Água ou ar?
Cheiro ou sabor?
Eu nasci ou fui plantado?
Eu morro
Ou
Me desfolho...

Respostas


O que seria uma página em branco?
O que seria um poeta sem canetas?
O que seria um jornal sem crônicas?
O que seria um dia sem fatos?
O que será das respostas se as perguntas são auto-suficientes?

Da Liberdade


A liberdade é um elefante branco
Que habita as zonas alagadas
Do sertão da Paraíba.

Epitáfio


Deixem em branco
A lápide fria de minha vida
Fria
Ou guardem-na para
Alguém que tenha,
Na vida,
Sido.
Eu nem tentei.
Melhor seria a vala comum
Onde habitam,
Anônimos, os
fracos.  

Lápis


Que função sórdida dou a esta caneta
Como se delegasse um ministério
Sacerdotal e promiscuo (santo)
Oficio de um sujeito de ócio

Uma revolta toma conta deste
Objeto, dejeto e infâmias horas
De despessoalização e dissimulação
Do ser finito do tamanho do mundo

O mundo de coisinhas nadas
Tudos de brancos negros
Cheiro de tinta preta-azul

Amiga de noites sem gim
Perdidos pedaços de mim
Esvai-se dessa coisa inócua.

A máscara


Dois em vários
Eus estamos assim
Nós sentindo só

As imagens revelam
Uma doce parte
Perdida de nós

Numa profusão de mim
Me fotografo
Diante do espelho

E me revelo uma luz
Apenas.

Himalaia

Há firmeza apenas na / inconstância. Esta é a / minha certeza. Este é o / meu consolo. Mais / constante que o meu / sentimento de afogamento / é a minha ânsia de que será / amanhã. Mas, como? Se / falta em mim um homem / forte e destemido: uma / porção de Adonis em busca / de uma Perséfone que me / conduzisse ao mais / profundo dos infernos, / aonde Cérbero não vai, e / me guiasse ao máximo de / mim numa viagem dantesca / pelas minhas próprias / entranhas inexploradas. / Estou em ebulição e / letargia. Vulcão vivo / coberto de neve.

Carta


                     Minha Musa,
           É bom poder te escrever estas palavras, que são menos palavras que palavras são. Tenho muita doçura e néctar, tenho alma e calor. Palor. Ardor. Alvura e cor... Só dizer-te ao longe que jasmineiros nada mais fazem que imitar teu cheiro, já que as rosas não têm mais que a graça de um espelho quando estais no jardim. Alvura e candura são as tuas cores, com nódoas e laivos em vermelhos escorrendo de teus lábios de carne de caqui. Dentes de marfim sem fim de brilho, em mim de luz. Alma infantil e olhar matreiro. Duas bolinhas de gude, jabuticabas maduras olhando-me e fazendo serenar no céu de minha boca o orvalho doce do desejo.
            Não te vás minha Cara. Não deixa esse deserto em meu peito. Chove em meu sertão, como as águas de dezembro que trazem sorte e encerram o ano deixando a vida.
            Com devoção.
             Seu Poeta.

Balzaquiana I


Como os Zéfiros que ocupam as campinas
Espalham as boninas em balé fremente,
Os cabelos de minha amada balem e
Espalham o dourada incandescente.

Olhar seguro de verde encanto
Fez-me escorrer Amor-Calor
A desejá-la desde menina
Como quem colhe no campo a flor.

A minha Amada é tão intensa
Mimosa mulher bonina-em-flor
Eu quero sempre em mim seus beijos
Molhados, doces, mel e palor

Quando em menina é a mulher
Hoje em mulher é a menina
Que tanto quis e quem não quer?
O seu encanto de luz divina.

Entre os seus braços eu quero estar
Deixar que seus olhos em mim desvele
No fundo de meu peito profundo:
Meu Amor, meu mundo é Magnely.

Ode à Amália Rodrigues


Na calada da noite
as coisas vão acontecendo na minha alma,
como um calor que me sua
como um vapor de caldeira,
como a tampa do vulcão que encobre a alma
que sai de dentro de meu dia
sempre que a noite ergue-se.
Hoje é desses dias de noite maior que o dia
e dia mais mole que a folha pendurada do jasmineiro que nem o beijaflor é capaz de ter pra si,
ela cai cai cai igual as gotinhas de desejo que pingam de minha boca semiaberta.
De mim pingam no limbo da noite o teu desejo e a tua alminha de anjo.
Pomares, lavouras, pastos:
tua alma me alimenta com suco da poesia e a dureza das raízes...
embebido dentro de mel e sal me faz suar.
A tua delicadeza é nuvem que transborda água fria quente morna ocre e carmim,
em mim.
Tu entras e deixas a delicia de um olhar
cortando o corte de um punhal de dois lados.
O lado de dentro e de mais dentro ainda,
em ti não tenho superfície...
você se faz minha carne e epiderme sangue e saliva, minha.
Minha és em meus calores
e sempre estará acesa-vela de meu suor.
És fado de Amália com gim e formosura
...airosa flor de lua, luz.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Ode à crítica (de Pablo Neruda)




Eu escrevi cinco versos: um verde,
um outro era um pão redondo,
o terceiro uma casa levantando-se,
o quarto era um anél,
o quinto verso era
curto como um relámpago
e ao escrevê-lo
me deixou na razão sua queimadura
E bem, os homens, as mulheres
vieram e tomaram
a sensível matéria,
brisa, vento, fulgor, barro, madeira
e com tão pouca coisa
construiram
paredes, pisos, sonhos,
Em uma linha de minha poesia
secaram roupa ao vento.
Comeram minhas palavras
as guardaram
junto da cabeceira,
viveram com um verso,
com a luz que saiu do meu lado.
Então, chegou um crítico mudo
e outro cheio de linguas,
e outros, outros chegaram
cegos e cheio de olhos,
elegantes alguns
como cravos com sapatos vermelhos,
outros estritamente
vestidos de cadáveres,
alguns partidários
do rei e sua elevada monarquia,
outros tinham-se
enredado à frente
de Marx e sapateavam em sua barba,
outros eram ingleses,
e entre todos se lançaram
com dentes e facas,
com dicionários e
outras armas negras
com menções respeitáveis,
se lançaram
a discutir a minha pobre poesia
às gentes simples
que lha amavam:
e a fizeram um funíl,
a enrolaram,
a sujeitaram com cem alfinetes,
a cobriram com pó de esqueletos,
a mancharam de tinta,
a cuspiram com a suave
bondade de gatos,
determinaram-na a ser papel de embrulho,
a protejeram e a condenaram,
a derramaram petróleo,
a dedicaram húmidos tratados,
a cozinharam com leite,
Juntaram-la pequenas pedrinhas,
foram apagando as vocais,
foram matando-a
sílabas e suspiros,
Arrugaram-na e fizeram
um pequeno pacote
que destinaram cuidadosamente
as seus porões, a seus cemitérios,
logo se retiraram um à um
enfurecidos até a loucura
Porque não fui bastante
popular para eles
ou impregnados de
doce menosprezo
por minha ordinária falta de trevas,
se retiraram todos e então,
outra vez, junto à minha poesia
voltaram a viver
mulheres e homens,
e acenderam fogo,
construiram casas,
comeram pão,
e repartiram a luz
e no amor uniram relâmpago e anél.
E agora, perdoem-me, senhores,
que interrompe este conto
que estou-lhes contando
e me vou viver
para sempre
com a gente simples.

(Traduzido por Ivan Santos)

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Café

Ao acordar o corpo
o trago de aroma
o preto prazer morno
o cheiro da boca


A casa repleta do gosto
do gole a goela se molha
o corpo que mole repousa
pra o rádio ou conversa mole


De Minas, Colômbia ou mercado
não importa de onde ele venha
importa que esteja passado
ou doce ou amargo ele seja


O líquido da cor de Iracema
no lábio ou na língua se enrola
É vivo. É mais que um poema
Melhor não tem nem Coca-Cola

Poematicidade (em parceria com Flaw Mendes)


Sinônimo


De manhã é o avesso da noite
Assim como a morte é o revés da vida
E a terra é o revés da água
O pó é o pedaço da pedra
O homem é o pedaço do nada
O nada é a parte de tudo
O cheiro é um pedaço da fruta
A mata é o pedaço da árvore
A árvore é o todo da mata
O quintal é o pedaço do homem
O homem é o  pedaço da fruta
A fruta é um pedaço da árvore
A pedra é o inteiro do pó
O revés é o contrário da ida
A vinda é o contrário da vida
A ida é o caminho da morte
A vida é o conjunto de tudo
tu-do-tu-do-tu-do-tu-do-tu

Desviver (ao meu pai doente)


Não é numa cadeira de balanço que ele espera, nem na cama apenas. Ele anda e come e dorme apenas, - vida tem um peso, como se um armário daqueles de colocar tralhas estivesse nas suas costas. As mãos e o corpo tremem como se a vida ansiasse sair pelas pontas dos dedos ou nas dobras das pernas. A doença dizia-lhe com palavras evidentes que tinha pressa. Não essa pressa que as pessoas têm quando se dedicam aos seus quefazeres, planos e desejos, não. A pressa que a vida tem é a pressa de sair dele, de fugir, largar-se do corpo que cambaleia e não tem mais dureza e a rigidez da juventude.
Deitado no sofá da sala deixa o raio de sol quente encher-lhe a cara vermelha de boca aberta e displicente. Queimaria se não saísse com a sutileza da chegada. A luz do sol não tem muito que ver com a escuridão que começa a se perfazer na mente que não pensa, nem reflete, nem projeta, só espera. Espera. Esperar não é a faculdade dos que adquiriram paciência... é também a dos que perderam a urgência. A sala às vezes parece que é grande demais nos seus menos de 10m². Dimensões imensas. A sala é cheia dos netos que a vida joga e os filhos que a vida fez. O velho sentado na sala como uma cadeira de uma sala que não se usa mais, uma televisão ligada e desligada à revelia de seus desejos.
Enquanto os dias se passam numa mágica lentidão de eventos: um café, uma rotina matutina que não preenche mais as expectativas, uma passagem na rua ao lado para não ver mais ninguém de seu passado que se distancia sem rastros, a padaria da esquina que antes comportava o nome de mercearia e tinha a nódoa de um mínimo passado esvaído em imagens que não voltam, a visita a parentes que só ele conhece a fundo e de perto, a noticia que um irmão está a beira da morte não mais surpreende nem estagna ou entristece, é um recado puro e simples como “o pão mais novo só sai em dez minutos”.

sábado, 28 de abril de 2012

A Orelha




A Vincent van Gogh


Quando a cara não aparece no retrato
(O ser enigmático se esconde)
A cara se contrai em dores de vida
A cama fica menor que o corpo
O corpo fica maior que a alma
A alma fica maior que a vida
A vida se contrai para um grão.

Qualquer que seja o olho, se fecha
Qualquer que seja a boca, seca
O que resta do homem no espelho
Senão a secura do seu lábio
O tamanho dos seus sonhos
A perda de sua memória
O silêncio dos seus gestos
A gota gasta de bile crestada
Na goela de seus dias vazios.

Nada que é tudo


Amanhã o dia é para heróis
Hoje o dia é para os vivos
Ontem o dia é para os mortos


Mas como nada é para os homens
e tudo é para os que poderiam ter sido
O mito é para todo o tempo


Fernando Pessoa é para além do mit

Highway to Hell - Idade neobarroca


É mais ou menos assim que as coisas andam!
A pós-modernidade é uma faca de dois gumes,
Derruba as barreiras, mas abre muitos becos
aos quais chamamos caminhos, destinos ou
simplesmente chamaremos de "highway to hell".



http://www.youtube.com/watch?v=40sGruiDcbo&feature=related

Retrato do meu desejo


Naquele prédio antigo como o desejo
Mora o meu mais novo desejo antigo

Acesa imagem de mulher não-santa
Contorno de sinuosidade curta

Carnosidades e sensualidades
Em vermelho que se espraia como sacrifício

Na boca na carne nas faces nas ancas
Naquele prédio antigo como desejo

Eva reaparece me enfeitiçando
Hálito boca carne e caldos

Sugados em doses homeopáticas
Um pouco de longe um pouco de perto
Um tudo por dentro

Retrato de meu desejo que cai da parede
No meu sonho no meu colo

Mito


Quando Ulisses sai para ver Loreley
em sua manhã casa azul
ele não tem nenhuma noção de como o dia é vermelho
no interior das coisas
                                   mais externas dela
porque ela tem a densidade de uma porta firme forte
que nos expõe um interior formidável
e às vezes de fórmica
brilhosa ou fosca
e às vezes um branco transparente da cor dos olhos inundados
                                                                                                                      [Mar de Ítaca
mas ele sabe que um homem como ele banhado de poesia
vai precisar de muita habilidade poética ou quem sabe filosófica para abrir a porta de sua alma

A cidade de Tróia
não dá metáfora para ela
Loriley é muito babilônica e não daria gosto de um frangote como Aquiles
traspassar suas barreiras
não é mania de grandeza de Ulisses
ele é grande mesmo

bem maior do que os sítios que derrubaram Jericó

e mais audacioso que as investidas de Josué conduzindo os hebreus pelos ermos solares
da região do Jordão
e adjacências
remotas
Loreley é um
Mito
Ulisses é onírico  

Presentes


A vida prepara pacotes
Carregados de presentes
Deixa na tua porta
Bate na tua janela
Fala nos teus sonhos
Inscreve nas tuas pedras
Pousa no teu quintal


A Vida é dadivosa
Modesta avó de um neto
Garante a tua surpresa
Congela diante dela
Teus olhos de desejo
Constroi a tua ânsia
Destroi tua tristeza


A vida, amiga minha,
Me deu teus olhos pretos
Me fez ser teu menino
Abriu os olhos meus
Buscou lá no meu íntimo
A alma que tinha ido
Viver, mas, não viveu.


A tua palavra mansa
O teu riso de carmim
Fizeram por sua vez
Eu querer em meu jardim
Ah! orquídea que caía
Na distância esquecida
- Cai aqui perto de mim.

Flor da noite



O sol entrava como um ladrão
pela janela.
Um sol de tom azul prateado
que
molhava meu corpo com esmero e doçura.
Eu não sei se é frio ou é apenas sono, mas, sei que sinto.

O que sinto eu não sei bem.
Os meus cabelos me encobrem parcialmente meu rosto que não quero mostrar.
Minha cara é minha alma por isso evito o Espelho.
O que quero não se traduz, não se compõe.
O que sou é vasto.
Sou profunda e o espelho é raso como a superfície
das águas.

O meu olhar está inclinado
porque eu nego esse horizonte que não foi eu que escolhi.

Eu me desmonto e me desfaço.
Eu estou chovendo
em laivos de prata que caem
gota
a
gota

do meu olhar.

Coisa de hôme



Eu quero a boca que come!
E comer a boca com fome.

Engolir a língua que some.
Na boca que grita meu nome.

(e em seguida)

-- Me-come.